terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Uma verdadeira noite catalã

Passear pelas ruas de Barcelona, sentar-se em um de seus cafés, saborear o inconfundível crema catalana num final de tarde... tudo isso seria apenas mais um passeio, não fosse por Barcelona ser o berço do Modernismo na Europa, o que torna tudo ainda mais interessante. Traçar pontes entre as esquinas da Barcelona vanguardista e a modernista do século XIX é reviver o cenário da Belle Époque, porque parece que lá a arte continua renascendo a todo instante. Os atuais artistas catalães primam pela sensibilidade e fantasia, pelo refinamento estético e têm um claro gosto pelo decorativo... exatamente como os modernistas! A fórmula é a mesma, o resultado é absolutamente diferente, por um ingrediente a mais: a criatividade! 
Assim como nas diversas representações de arte, os restaurantes de Barcelona primam pela gastronomia de ponta, aliando os melhores ingredientes à arte de bem servir. E, como eu falei no post anterior, há programa para todos os bolsos. De tapas e sanduíches até a mais nova tendência: o menu degustação.
E foi com a finalidade de passar pela experiência do tal menu que fomos parar no Osmosis [C/ Aribau, 100]. Entre os mais de 3 mil restaurantes cadastrados no TripAdvisor, o Osmosis recebeu a 6ª posição entre os melhores. É óbvio que entre os que estão no topo da lista não se consegue uma reserva assim, em uma passadinha pela cidade nas férias... há que se reservar com meses de antecedência. Então, conseguir visitar o 6º mais bem colocado foi uma vitória para nós, que também não tínhamos a "preten$ão"  de ir ao "melhor" menu da cidade...
A noite começou com várias surpresas: a primeira delas é que só conseguimos estacionar num desses rotativos que cobram por minuto (hahahaha) e a gente sabia que não podia ter pressa para voltar, afinal um menu degustação não é algo que se coma em uma horinha.



O garçom vem até a mesa, apresenta o menu degustação da noite, pergunta se o cliente gostaria de modificar algum ingrediente dos pratos ou retirar algum prato da sequência. No nosso caso, é óbvio que não pedimos modificação alguma. Ao todo, naquela noite, seriam servidos 7 pratos, entre entrada, peixe, carne e sobremesas. Isso mesmo: no plural! Enquanto esperávamos o primeiro prato, nos foi servido uma degustação de pão, azeite e sal. Era assim: o pão vinha servido recém-saído do forno, sem tempero algum. Na mesa, alguns tipos de sal e azeite. Nós podíamos temperar à vontade, fazendo nossas combinações, entre azeite extra-virgem ou um outro produzido na região, e três tipos de sal: um marinho, um rosado, em forma de escamas irregulares, do Himalaia e o sal negro, conhecido como "Kala namak", proveniente da Índia. A brincadeira já ficou divertida no começo, né?



Como entrada, um bloco de foie gras, com purê de maçã e baunilha. Para mim, a decepção da noite. O foie gras (e meus amigos protetores dos animais, das ONGs de que também faço parte, que não leiam isso) é uma das iguarias mais deliciosas que eu conheço. Combina com quase tudo... mas não com a tal baunilha aí! J. gostou e ainda comeu o que eu deixei no prato.




O segundo prato servido foi a sensação da noite, a meu ver insuperável a partir dali: creme de Blue d'Aosta, com abacaxi em cubinhos, páprica picante e camarões. Eu não sei como o chef chegou a essa combinação, mas eu tenho certeza de que foram necessárias algumas boas tentativas para unir em um só prato o amanteigado e aromático do queijo, o agridoce do abacaxi, o picante da páprica e o mariscado do camarão. Cada sabor vindo na dose e tempo certos. Ao receber o prato, você sente o aroma de queijo e, ao colocar na boca a primeira colherada, a manteiga, seguida do picante da páprica, que logo é quebrado pela mordida num pedaço de abacaxi... e este logo suavizado  pela carne do camarão. Impressionante. Paladar limpo novamente. Tudo em uma ordem primorosa de obediência de sabores.



O próximo prato: arroz de cominho, cardamomo, coco e coquelet (que nada mais é do que um frango abatido com menos de 28 dias de vida e jamais pode passar de 750g). Muito bom, principalmente para quem está adaptando o paladar ao cominho, como eu. A melhor parte? O coco em cubinhos, com certeza! 



O quarto prato da noite: merluza com baby rúculas e pistaches. Particularmente, eu dispenso a merluza. Mas estamos falando de Espanha. Não dá pra deixar de comer peixe por lá. E, apesar de ser um peixe originário dos mares do Norte, é muitíssimo apreciado nesse país. Contudo, vale salientar que não estamos falando daquela velha conhecida nossa, a merluza das prateleiras de supermercado. Em nada se parecem. Mas ainda acho que é um peixe como outro qualquer - de qualidade, claro.




O quinto prato, um dos mais gostosos também, na minha opinião: filé de cervo, framboesas, abóboras e mató (um tipo de ricota fresca temperada). Vale cada garfada!




Agora, a parte que a maioria devia estar esperando: as sobremesas!!!!!

Para começar, uma originalíssima (isso mesmo, adoro essa palavra, principalmente porque eu sei utilizá-la muito bem) banana split. Os ingredientes são os mesmos, mas quem disse que o resultado também o é? Originalidade, nada mais! Assim como na música: há quem saiba misturar  Sivuca e Hermeto Pascoal e compor algo original... há, no entanto, quem passe a vida inteira ouvindo de Jackson a Stravinsky (é assim mesmo que se escreve) e continue compondo pra meia dúzia. Porque a originalidade vai além do estudo. É preciso ter o dom de alcançar o coração dos outros. Taí a banana split "originalíssima", pra explicar o que tá na caraA banana era fina feito papel e muito crocante (passamos dias pensando como repeti-la aqui em casa). O sorvete repousava sobre um leito de chocolate, sustentado por pedaços de banana e morangos supercongelados (imaginamos que tenham usado nitrogênio líquido), banhados por uma calda da mesma fruta. Era uma sobreposição de crocâncias diferentes que deixaram essa sobremesa extremamente divertida no pálato.


Fechando a noite no jardim das delícias, o supremo chocolate, em três composições: sorvete de baunilha com pinceladas de chocolate ao leite; cilindro de chocolate meio amargo e sorvete de café e, por último, a explosão de chocolate: uma bolinha coberta com uma fina casca de chocolate meio amargo que, quando mordida, explodia na boca um creme do melhor chocolate ao leite! Chocolate, chocolate, chocolate! A ordem vinda da cozinha era a de comer do menos para o mais intenso... começando, então, pelo sorvete.




Para harmonizar isso tudo, o sommelier nos indicou um vinho branco da região, que conseguiu acompanhar todos os pratos (exceto as sobremesas, claro) com total elegância. Além disso, a água preferida do marido, também da região: Vichy Catalan (ela não mata a sede, mas substitui muito bem qualquer outra bebida numa refeição - excelente indicação para as viagens pela Espanha, não deixem de experimentar na primeira oportunidade).
Bem, o preço da brincadeira? Salgado, obviamente! Bem salgado, mas vale cada centavo! Principalmente porque isso não é comida de todo dia. É uma noite para se guardar na memória por longos e lindos anos! Nosso brinde, então  a 2012, porque ele merece começar como este post: recheado de maravilhas! Alláh'u'abhá!!!

A todos, bon appétit!


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