quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Claras em Castelo - uma noite em Lisboa


Sabe quando você está viajando há dias e se depara com um lugar que tem o cheiro da cozinha de casa? Não sei como acontece com a maioria dos meus amigos, mas há um determinado momento quando estou viajando em que a única coisa que eu desejo profundamente é comer qualquer comida com gosto do que a gente faz em casa.
A gastronomia contemporânea guarda uma necessidade de ser única: na montagem dos pratos, na originalidade dos ingredientes, no inusitado das combinações. Isso é ótimo! Mas, viajantes gastronômicos que somos, chega uma hora em que nada cai melhor do que o bom e velho temperinho da vovó. E é disso que estou falando: do que foi inventado há séculos e deu certo! Do tradicional - e não menos excepcional - tempero caseiro.
Quando fomos visitar as ruínas do Castelo de São Jorge, em Lisboa, J. procurou indicações de boa comida nas proximidades do lugar, visto que queríamos passar o dia perambulando pelas ruelas pitorescas da velha mãe lusitana. Eu havia encontrado pelo caminho uma gripe europeia daquelas... e meu humor estava profundamente abalado (meu marido não é bem o exemplo de alguém que tem paciência com moribundos, principalmente no meio de uma viagem: ele odeia doença, detesta falar sobre doença, não suporta quem só fala em doença... e, é claro que ficar doente no meio de uma viagem planejada por ele é sinal de estresse. Havia dois dias, então, que eu subia e descia ladeira naquela Lisboa inclinada, entre espasmos e espirros, ouvindo que "se o passeio não está agradando, podemos ir pro hotel. Eu já conheço isso tudo". Mas, era apenas gripe! Quem já sofreu com isso em uma viagem, sabe do que estou falando... e ninguém gosta tanto de visitar lugares e cidades históricas quanto eu - falo isso com prioridade, porque ninguém fez a proeza que eu fiz, de estar em Canudos, alto sertão baiano, às 5horas da manhã, para poder aproveitar o sol nascente, antes que aquilo ali ficasse insuportável, no sol escaldante das 8 da manhã! E naquela situação aparentemente inusitada, o que pra mim era doença, para meu marido era desinteresse). Assim, não insisti em procurar outro lugar para comer, quando ele falou que aquela portinha embaixo do portão de acesso ao Castelo era super bem requisitada no TripAdvisor. Fomos até lá, reservamos uma mesinha para mais tarde... e encaramos o sobe-e-desce dos becos da cidade alta. Que lugar lindo! Quanta semelhança com os centros históricos brasileiros: porcelaninhas, paninhos bordados, souvenirs coloridos de todos os tipos: Lisboa é um  Brasil mais velho! Quanto de mim eu encontrei por lá... quanto de lá eu trago por cá! Um encanto... e uma nostalgia doída.
À hora combinada, então, chegamos para o jantar no Claras em Castelo [Rua Bartolomeu de Gusmão, 31, Lisboa]. O trocadilho é proposital, muito embora possa não ser entendido por alguns do lado de cá do oceano, então trato logo de explicar: "claras em castelo" é como os portugueses chamam o que para nós é conhecido por "claras em neve". Como o restaurante fica às portas do Castelo de São Jorge, uma coisa leva à outra, ora pois!
O clima romântico e a simpatia da proprietária e de sua filha (que ajuda a mãe no atendimento e organização dos pedidos lá na cozinha) completaram o cenário que já me pareceu aconchegante ainda ao primeiro olhar. Com uma seleção de músicas para deixar qualquer casal em total sintonia, foi fácil esquecer o mau humor dos dias anteriores e entrar no clima de uma noite que terminaria muito bem, sim senhor! O cardápio é enxuto e renovado de acordo com o dia: a anfitriã te oferece umas 3 ou 4 opções do que fica difícil escolher uma só! As seletas garrafas de vinho à disposição também harmonizam com o clima de casa da gente... 
Para entrada, escolhemos uma salada de queijo de cabra, nozes e mel. Uma combinação fantástica de sabores e, sem dúvidas, uma entrada que quero repetir para alguma visita especial aqui em casa. Como prato principal, J. optou pelo bacalhau com natas. Nós comemos bacalhau todos os dias em Portugal. Não apenas porque há a fartura do prato por lá, tampouco porque gostamos muito. Mas, o principal motivo foi para poder indicar aqui um bom lugar para comer bacalhau em Lisboa. Então, quem quiser comer um bacalhau com natas aos moldes portugueses:  Claras em Castelo! Este ganhou sobretudo pelo sabor!



Eu pedi uma vitela cozida em legumes. Para acompanhar, tinha a opção de arroz ou batatas. Como eu já tinha puxado o olho no prato da mesa vizinha e namorado as batatas que estavam lá, optei por elas! Escolha da qual não me arrependo, olhem a maravilha:


Pois, se eu acreditasse em milagres, diria que esta refeição foi milagrosa para minha gripe. Olhem que já cheguei curada no hotel, eu juro!!!! Santa vitela!
E a chef não deixa por menos: se a porção não foi suficiente, ela te serve mais! Nós dois achamos mais que suficiente e comemos de gula até o final, porque essas delícias não estavam de deixar no prato!
Enquanto J. degustava a sobremesa (algo como um apfelstrudel servido com uma bola de sorvete... mas a chef chamava a sobremesa por um nome específico, que não anotamos e depois esquecemos), eu fiquei na minha tacinha de porto:



Por fim, o melhor da festa: a brincadeira saiu pouco mais de 60 euros (incluindo o vinho - um excelente tinto duriense de pequeno produtor, especialmente selecionado pela casa - a sobremesa e o porto do final)! Para completar o clima, um pouco de música no final deste post, para celebrar a descoberta, as amizades e o sabor de Portugal! Que a volta ao solo lusitano seja em breve!

A todos, bon appétit!







terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Uma verdadeira noite catalã

Passear pelas ruas de Barcelona, sentar-se em um de seus cafés, saborear o inconfundível crema catalana num final de tarde... tudo isso seria apenas mais um passeio, não fosse por Barcelona ser o berço do Modernismo na Europa, o que torna tudo ainda mais interessante. Traçar pontes entre as esquinas da Barcelona vanguardista e a modernista do século XIX é reviver o cenário da Belle Époque, porque parece que lá a arte continua renascendo a todo instante. Os atuais artistas catalães primam pela sensibilidade e fantasia, pelo refinamento estético e têm um claro gosto pelo decorativo... exatamente como os modernistas! A fórmula é a mesma, o resultado é absolutamente diferente, por um ingrediente a mais: a criatividade! 
Assim como nas diversas representações de arte, os restaurantes de Barcelona primam pela gastronomia de ponta, aliando os melhores ingredientes à arte de bem servir. E, como eu falei no post anterior, há programa para todos os bolsos. De tapas e sanduíches até a mais nova tendência: o menu degustação.
E foi com a finalidade de passar pela experiência do tal menu que fomos parar no Osmosis [C/ Aribau, 100]. Entre os mais de 3 mil restaurantes cadastrados no TripAdvisor, o Osmosis recebeu a 6ª posição entre os melhores. É óbvio que entre os que estão no topo da lista não se consegue uma reserva assim, em uma passadinha pela cidade nas férias... há que se reservar com meses de antecedência. Então, conseguir visitar o 6º mais bem colocado foi uma vitória para nós, que também não tínhamos a "preten$ão"  de ir ao "melhor" menu da cidade...
A noite começou com várias surpresas: a primeira delas é que só conseguimos estacionar num desses rotativos que cobram por minuto (hahahaha) e a gente sabia que não podia ter pressa para voltar, afinal um menu degustação não é algo que se coma em uma horinha.



O garçom vem até a mesa, apresenta o menu degustação da noite, pergunta se o cliente gostaria de modificar algum ingrediente dos pratos ou retirar algum prato da sequência. No nosso caso, é óbvio que não pedimos modificação alguma. Ao todo, naquela noite, seriam servidos 7 pratos, entre entrada, peixe, carne e sobremesas. Isso mesmo: no plural! Enquanto esperávamos o primeiro prato, nos foi servido uma degustação de pão, azeite e sal. Era assim: o pão vinha servido recém-saído do forno, sem tempero algum. Na mesa, alguns tipos de sal e azeite. Nós podíamos temperar à vontade, fazendo nossas combinações, entre azeite extra-virgem ou um outro produzido na região, e três tipos de sal: um marinho, um rosado, em forma de escamas irregulares, do Himalaia e o sal negro, conhecido como "Kala namak", proveniente da Índia. A brincadeira já ficou divertida no começo, né?



Como entrada, um bloco de foie gras, com purê de maçã e baunilha. Para mim, a decepção da noite. O foie gras (e meus amigos protetores dos animais, das ONGs de que também faço parte, que não leiam isso) é uma das iguarias mais deliciosas que eu conheço. Combina com quase tudo... mas não com a tal baunilha aí! J. gostou e ainda comeu o que eu deixei no prato.




O segundo prato servido foi a sensação da noite, a meu ver insuperável a partir dali: creme de Blue d'Aosta, com abacaxi em cubinhos, páprica picante e camarões. Eu não sei como o chef chegou a essa combinação, mas eu tenho certeza de que foram necessárias algumas boas tentativas para unir em um só prato o amanteigado e aromático do queijo, o agridoce do abacaxi, o picante da páprica e o mariscado do camarão. Cada sabor vindo na dose e tempo certos. Ao receber o prato, você sente o aroma de queijo e, ao colocar na boca a primeira colherada, a manteiga, seguida do picante da páprica, que logo é quebrado pela mordida num pedaço de abacaxi... e este logo suavizado  pela carne do camarão. Impressionante. Paladar limpo novamente. Tudo em uma ordem primorosa de obediência de sabores.



O próximo prato: arroz de cominho, cardamomo, coco e coquelet (que nada mais é do que um frango abatido com menos de 28 dias de vida e jamais pode passar de 750g). Muito bom, principalmente para quem está adaptando o paladar ao cominho, como eu. A melhor parte? O coco em cubinhos, com certeza! 



O quarto prato da noite: merluza com baby rúculas e pistaches. Particularmente, eu dispenso a merluza. Mas estamos falando de Espanha. Não dá pra deixar de comer peixe por lá. E, apesar de ser um peixe originário dos mares do Norte, é muitíssimo apreciado nesse país. Contudo, vale salientar que não estamos falando daquela velha conhecida nossa, a merluza das prateleiras de supermercado. Em nada se parecem. Mas ainda acho que é um peixe como outro qualquer - de qualidade, claro.




O quinto prato, um dos mais gostosos também, na minha opinião: filé de cervo, framboesas, abóboras e mató (um tipo de ricota fresca temperada). Vale cada garfada!




Agora, a parte que a maioria devia estar esperando: as sobremesas!!!!!

Para começar, uma originalíssima (isso mesmo, adoro essa palavra, principalmente porque eu sei utilizá-la muito bem) banana split. Os ingredientes são os mesmos, mas quem disse que o resultado também o é? Originalidade, nada mais! Assim como na música: há quem saiba misturar  Sivuca e Hermeto Pascoal e compor algo original... há, no entanto, quem passe a vida inteira ouvindo de Jackson a Stravinsky (é assim mesmo que se escreve) e continue compondo pra meia dúzia. Porque a originalidade vai além do estudo. É preciso ter o dom de alcançar o coração dos outros. Taí a banana split "originalíssima", pra explicar o que tá na caraA banana era fina feito papel e muito crocante (passamos dias pensando como repeti-la aqui em casa). O sorvete repousava sobre um leito de chocolate, sustentado por pedaços de banana e morangos supercongelados (imaginamos que tenham usado nitrogênio líquido), banhados por uma calda da mesma fruta. Era uma sobreposição de crocâncias diferentes que deixaram essa sobremesa extremamente divertida no pálato.


Fechando a noite no jardim das delícias, o supremo chocolate, em três composições: sorvete de baunilha com pinceladas de chocolate ao leite; cilindro de chocolate meio amargo e sorvete de café e, por último, a explosão de chocolate: uma bolinha coberta com uma fina casca de chocolate meio amargo que, quando mordida, explodia na boca um creme do melhor chocolate ao leite! Chocolate, chocolate, chocolate! A ordem vinda da cozinha era a de comer do menos para o mais intenso... começando, então, pelo sorvete.




Para harmonizar isso tudo, o sommelier nos indicou um vinho branco da região, que conseguiu acompanhar todos os pratos (exceto as sobremesas, claro) com total elegância. Além disso, a água preferida do marido, também da região: Vichy Catalan (ela não mata a sede, mas substitui muito bem qualquer outra bebida numa refeição - excelente indicação para as viagens pela Espanha, não deixem de experimentar na primeira oportunidade).
Bem, o preço da brincadeira? Salgado, obviamente! Bem salgado, mas vale cada centavo! Principalmente porque isso não é comida de todo dia. É uma noite para se guardar na memória por longos e lindos anos! Nosso brinde, então  a 2012, porque ele merece começar como este post: recheado de maravilhas! Alláh'u'abhá!!!

A todos, bon appétit!