segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Cozinha peruana de alta qualidade


Aquela velha história da matéria-prima! A cozinha, meus caros, não tem segredo. É a combinação certa de ingredientes de qualidade. 
Num charmoso hotel de Palermo [ calle Uriarte, 1648 - Palermo Soho], funciona um restaurante que sabe bem do que eu falo por aqui. Sipan, é o nome do lugar. É também o nome de um antigo governante peruano, que reinou entre os séculos II e III no Peru, cuja tumba só foi descoberta em 1987 (corrijam-me os amigos peruanos, se alguma informação estiver equivocada).
Sipan, o restaurante, já pelo nome revela o tipo de cozinha que apresenta ao cliente: guarda um pedaço precioso do Peru, entre esculturas decorativas e pratos típicos. Dizem que todos os objetos de decoração foram mesmo trazidos do país homenageado. Além disso, o toque da pop art, que traduz a proposta entre história e originalidade, não fica apenas nos cardápios coloridos, mas ainda em recantos de paredes e painéis. Um lugar agradavelmente diferente!
A comida traz não apenas a tradição peruana, mas um toque mais cosmopolita, ao integrar ao cardápio alguns elementos da comida japonesa, numa interessante combinação que deu certo!
Olha, e se tem uma coisa que me agrada são as cozinhas abertas. Ou seja, você está na mesa e está vendo como a equipe do restaurante trabalha os pratos (com que agilidade, com que cuidado, com que organização - isso é maravilhoso).
Quando você escolhe a mesa, o garçom já vem com aquelas porções de milho peruano tostadinho (cancha ou maíz chulpe, como dizem), que são o que há de mais típico quando pensamos em Peru. De entrada, niguiris de camarões com molho de maracujá. Uma delícia. Obviamente, o carro-chefe do restaurante são os ceviches. Escolhemos dois: o tradicional, feito com corvina, e o de frutos do mar (com polvo e camarões). Foi difícil escolhermos o melhor entre eles, então vou recomendar ambos! Para harmonizar, pedimos um Linda Flor chardonnay 2009. A carta de vinhos é restrita, mas os rótulos disponíveis são ótimos e têm preços muito justos. Aliás, se formos falar no conjunto de tudo isso, a brincadeira não é cara, principalmente porque na hora de pagar a conta, não há como não se sentir recompensado e agradecido - por ser bem tratado, bem servido e saber que a qualidade é o segundo nome desse lugar!

sábado, 29 de outubro de 2011

A quem interessar possa...

‎"Quando um tipo vai além de todas as medidas e de fato me ofende, já com ele não me aborreço, não fico enojado ou furioso, não brigo, não corto relações, não lhe nego o cumprimento. Enterro-o na vala comum de meu cemitério — nele não existem jazigos de família, túmulos individuais, os mortos jazem em cova rasa, na promiscuidade da salafrarice, do maucaráter.
Para mim o fulano morreu, foi enterrado, faça o que faça já não pode me magoar. Raros enterros — ainda bem! — de um pérfido, de um perjuro, de um desleal, de alguém que faltou à amizade, traiu o amor, foi por demais interesseiro, falso, hipócrita, arrogante — a impostura e a presunção me ofendem fácil. No pequeno e feio cemitério, sem flores, sem lágrimas, sem um pingo de saudade, apodrecem uns tantos sujeitos, umas poucas mulheres, uns e outras varri da memória, retirei da vida." (Jorge Amado. Navegação de Cabotagem)

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

La Brigada - a melhor parrilla, indiscutivelmente!





Dessa vez foi mesmo para tirar a prova: não perca tempo nem dinheiro e vá direto ao La Brigada [Calle Estados Unidos, 465, San Telmo], quando quiser comer uma verdadeira e saborosa parrilla em Buenos Aires. É porque assim, ó: existem os famosos pega-turistas, os cantinhos da moda, os lugares baratos e os que preferem a qualidade. O La Brigada está neste último. Simples assim.
Para quem não conhece, a parrilla é um prato dos pampas (o famoso churrasco, aqui no Sul). Na Argentina e sobretudo no Uruguai, há um cuidado especial na escolha e preparação da carne a ser assada (sempre horizontalmente). Carnes como as de cordeiro, porco e boi são as mais utilizadas em uma boa parrilla, mas lembre-se que você pode pedir qualquer parte desses animais para seu assado, inclusive vísceras e glândulas (em Montevidéu, experimentei glândulas de vaca e, acreditem, são deliciosas! Uma carne branca, de sabor suave). É bom lembrar que, para o paladar brasileiro, as parrillas precisarão sempre de um pouco mais de sal, mas isso não compromete o valor do prato: as carnes são muito macias e lembrar de pedir que venha ao "ponto do assador" é o ideal para quem vai experimentar pela primeira vez e por outras mais.
Eu sempre digo aqui que valorizo muito os lugares frequentados pelos nativos das cidades onde visito. E sempre digo o porquê. Só se conhece bem um lugar, vivendo da forma como vivem os que o habitam. Não adianta viajar milhas para comer em um fast food da vida (nada contra fast food e até acho que no aperto, é o que nos salva... mas vamos evitar a apelação). Há que se sentar em parques e comer os sanduíches de carrinhos, tomar sucos de frutas da região, procurar ir a restaurantes frequentados pelos moradores, comer o que se come naquela cidade (desde que você não tenha alergia, no mais não há justificativa para achar o costume de alguém algo nojento ou sem sabor, só porque não é o seu feijão com arroz).
A primeira vez que ouvimos falar no La Brigada, eu confesso que imaginei um lugar bem diferente, mas depois de me aprofundar um pouco mais na cultura argentina, tudo ficou esclarecido: os argentinos são fanáticos por futebol (talvez até mais que nós - e eles têm bons motivos, o que anda nos faltando por aqui). A pitoresca decoração, então, pode não agradar a todos, mas é sem dúvida o que há de mais naturalmente argentino - há bandeiras e faixas de times de futebol do mundo inteiro e, eles prometem: se seu time não estiver nas paredes do La Brigada, leve seu símbolo e eles o pendurarão! Uma outra parede, branca, exibe autógrafos de personalidades, entre técnicos de futebol, jogadores e renomados chefs de cozinha, todos dando os bravos a Hugo, o proprietário! Apesar da frequente fila na porta, o atendimento é rápido e os garçons são ágeis. Explicam o que é necessário o cliente saber de cada prato e saem correndo, porque o movimento é grande e eles não têm tempo a perder. De qualquer forma, parece que têm olhos nas costas, pois mesmo antes da taça esvaziar, já estão ali pra garanti-la sempre cheia.
Mas o espetáculo do La Brigada é, sem dúvida alguma, a carne. Você escolhe seu pedaço da parrilla e o acompanhamento (é bom pedir alguma entrada, como um prato de jamón crudo ou una picada de quesos. Pedimos uma empanada de carne para a filha e uma porção de jamón con melón para nós). No nosso caso, fomos de salada da casa, papas fritas e, no churrasco, escolhemos las entrañas e o tradicional bife de chorizo (contrafilé). De qualquer forma, vale a pena também provar o asado de tiras (costela) ou o ojo de bife. A carne, meus queridos, é cortada de colher!!!!! Isso mesmo, colher! É tão macia que o garçom não usa faca para cortá-la! Ele vem com duas colheres e vai separando aquela "manteiga" para você e ainda explica, quando vê que seus olhos estão boquiabertos: "sí, és una cuchara"! 
Falando bem francamente: já tivemos a oportunidade de ir a conceituados restaurantes de parrilla, como o La Cabrera (que serve as melhores papas fritas que comemos em Buenos Aires, podem ir lá só pra comprovar. Aproveitem que é o da moda), o Siga la Vaca (esse me lembrou muito as churrascarias daqui), Cabaña las Lilas, enfim. Todos são bons, mas nenhum serve a carne do La Brigada, ponto. Quer motivo maior para sempre retornar?

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Buenos Aires sem milagres



Acabamos de retornar de mais uma passagem por Buenos Aires e, como sempre, nem mesmo o vulcão chileno foi capaz de estragar os dias especialíssimos com que aquela cidade sempre nos brinda. Um ou outro contratempo, como remarcação de passagens, procura inesperada por hotel para mais dias do que os planejados, mas tudo naquele clima de "ok, pelo menos estamos em Bs As". 
Daí que hoje eu começo nossas resenhas sobre algumas indicações de restaurantes para conhecer, para retornar e para nunca mais voltar! Vamos começar por onde nunca mais voltar, pra acabar logo com isso, então!
Seguimos a dica da revista Viagem que estava nas bancas na semana em que íamos pegar o beco e resolvemos atracar no tal El Almacén de los milagros [Av. Quintana, 210, Recoleta]. A sugestão era um almoço rápido na Recoleta, como prometia a revista. Mas a coisa foi além... de rápido, nossa hora sagrada tornou-se mesmo um tumultuado e atrapalhado encontro com uma comida sem milagre algum! Primeiro que nos colocaram numa mesa sem toalha, porque não tínhamos feito reserva (oi?). Depois, não serviram o couvert de J. ,apenas o meu e o da filha - muito chato ficar esperando um terceiro prato que não vem nunca pra mesa! No fim, nem petiscamos direito porque J. estava sem o prato dele... que indelicadeza! Além disso, a desorganização da cozinha incomodou e os garçons estavam visivelmente despreparados para atender a demanda do dia... até para algo que deveria ser praxe numa cidade como Bs As - servir o vinho - foi desastroso! Vinho este que, aliás, valeu a conta: um Amalaya Gran Corte, 2009 - espetáculo com todos os bravos.
Pontos positivos do restaurante (que talvez justifiquem o nome dele nas indicações de viagem da revista): localização, mobiliário e decoração dignos de um verdadeiro armazém (com aquelas balanças vermelhas antigas e latas de biscoitos da época da vovó), proposta de almoço rápido e descontraído (o que já desobrigaria uma reserva), cardápio enxuto, que oferece ao cliente ótimas opções para entradas e pratos principais, da Itália à Argentina, e uma carta de vinhos que faz jus ao país. 
Por que não voltar? Se você está em Buenos Aires, uma cidade que tem um dos melhores serviços de mesa que eu conheço, isso deve ser merecidamente respeitado pelo turista. Comida boa não é diferencial para restaurante. É obrigação. E há duas coisas que eu não tolero, quando estamos falando desse assunto: primeiro de tudo, ingrediente ruim em prato caro (o que faz uma boa comida é a escolha criteriosa dos ingredientes, desde os básicos, como o azeite ou a manteiga da preparação. Isso tem que ser regra). Segundo, serviço de péssima qualidade. E pagamos por essas duas coisas no Almacén. Motivos para não voltar, não faltaram... os milagres, sim!


quarta-feira, 19 de outubro de 2011

terça-feira, 4 de outubro de 2011

A falta de pan, tortilla!!!!

O cardápio mexicano é prato cheio para quem gosta de brincar com condimentos. Além do desbunde da pimenta, a cozinha de los chicos não dispensa combinações inusitadas e um tanto ousadas.
Hoje eu darei duas receitas de pratos mexicanos, adaptados ao paladar brasileiro, simples e que certamente farão sucesso em um almoço de domingo, com a filharada reunida. O mais legal dessa culinária é a possibilidade do almoço não acabar durante toda a tarde, porque a brincadeira é comer despojadamente esses pratos coloridos e deliciosos!
Aqui em casa, a filha não dispensa o famoso guacamole, que é um purê de abacate temperado, servido com tortillas (os famosos pães em forma de disco, feitos a partir de farinha de milho). Pelos supermercados do Sul, já é possível encontrar tortillas prontas para o consumo. No entanto, vale salientar que elas possuem uma quantidade considerável de gorduras saturadas e, pelo preço, vale mais a pena colocar a mão na massa. Como estávamos apenas eu e a filha no final de semana, copiei a ideia do Café Saint Germain, lá na Lagoa da Conceição, e fiz a substituição da tortilla industrializada pelo famoso pão sírio (ou pita). Vou ensinar como faz. Primeiro, abra o pão sírio pela metade. 

Em seguida, corte-o em triângulos e leve ao forno pré-aquecido por uns 3 minutos. Ele vai ficar crocante, como aqueles snacks de saquinho, que você compra no supermercado.




Para o guacamole, você vai precisar de:
1 abacate meio maduro;
1 cebola picada em cubinhos;
1 tomate picado em cubinhos (sem semente);
suco de 1 limão;
200ml de leite integral;
coentro em folha (não me venham com coentro em grãos, por favor! Vamos aprender a usar a cozinha em benefício próprio);
pimenta (opcional, SÓ aqui no Sul do Brasil);
sal e pimenta-do-reino.


Primeiro, você vai amassar o abacate, até que fique um purê. Em seguida, misture aos poucos os ingredientes e vá provando e acrescentando mais tempero, se for o caso. Sugiro que, se não quiser colocar a pimenta diretamente no guaca, leve-a à mesa, pois muitos convidados experimentarão o prato e sentirão falta de um certo picante, que dará charme à iguaria, vá por mim. Depois, monte uma mesa bem linda, em cores de México e deixe o pessoal se divertir:

Para quem quer ainda mais opções, vou ensinar mais uma maneira de utilizar as tortillas: vamos montar as famosas Fajitas mexicanas, que são uma espécie de panqueca. Elas surgiram porque os trabalhadores mexicanos do Texas levavam seu feijão e carne prontos e, para facilitar na hora de comer, colocavam dentro das tortillas. Para isso, cozinhe normalmente uma porção de carne moída temperada (como você faz no dia a dia em sua casa). Em uma panela, cozinhe outra quantidade de feijão carioca, mas não coloque na pressão, pois ele precisa ficar cozido, mas consistente. Depois, junte em uma frigideira a carne moída e os grãos de feijão, regando com o caldo do cozimento para não grudar. Em seguida, coloque um pouco de polpa de tomate na frigideira e, se gostar, acrescente bastante pimenta (o chilli mexicano), além dos temperos verdes que você geralmente tem em casa.


Para montar, fatie pimentões coloridos, pique alface, mais uma fatia de queijo mozzarella e enrole tudo nas tortillas. Vai ficar assim:


A todos, bon appétit!
P.S.: o título deste post é um dito popular mexicano, que aqui no Brasil funcionaria mais ou menos como: "quem não tem cão, caça como gato" (é "como" gato mesmo, tá pessoal! A gente é que costuma dizer errado e utiliza a preposição "com" - mas gato é um bicho que caça solitário e por isso quem não tem cão caça COMO gato). Ou seja, cada um se vira como pode nessa vida!!!!