sábado, 10 de setembro de 2011

Sobre crianças e restaurantes

Desde domingo passado, com a publicação no suplemento Donna DC da matéria sobre a proibição de crianças em determinados estabelecimentos públicos da capital catarinense, criou-se uma discussão acalorada na cidade que, a meu ver, é pouco frutífera. E explico: uma sociedade civilmente organizada é aquela onde consegue-se achar solução para apaziguar todo o tipo de conflito, no afã de que os membros todos possam viver em harmonia (é o que Kant chamava, em bom alemão, de Bürgerliche Gesellschaft, ou "a Sociedade Civil", que no estudo do Direito nada mais é do que o ordenamento que vai garantir o relacionamento dialético entre macro e micro-comunidade - o Estado e a família). Assim, só há necessidade de uma lei se há uma desorganização social que esteja atingindo a boa convivência entre as pessoas.
Faz alguns anos, nós fomos a um restaurante chiquérrimo com uma vista deslumbrante para a Lagoa da Conceição. O lugar tinha poucas e confortáveis mesas, uma carta de vinhos de fazer inveja aos bons apreciadores e um preço considerável por tudo isso. A música romântica apontava para um almoço que terminaria quase ao pôr-do-sol, de tão maravilhoso que estava sendo! Eis que entrou um casal com duas crianças de seus 3 e 4 aninhos, acompanhadas de uma babá. E, em não mais que meia hora, estávamos loucos para terminar o vinho e deixamos até a sobremesa de lado, tamanha era a algazarra dentro do bistrô. Uma gritaria, brincadeiras inconvenientes para um lugar tão pequeno e inapropriado para receber crianças. Não havia um parque, não havia cadeiras adequadas para os pequenos. Havia apenas uma babá desnorteada, uma mãe cansada e um pai com cara de poucos amigos. O resultado, para nós, foi uma conta caríssima para um aproveitamento restrito! Também não são raras as vezes em que J. chega de uma de suas longas viagens de trabalho e quando eu pergunto se ele conseguiu descansar durante o percurso, a resposta é: "Não. Tinha um bebê no voo e ele não parava de chorar". Escândalo em supermercado também é constrangedor: crianças que gritam, se jogam, ameaçam bater nos pais porque querem o iogurte do Solzinho ou o biscoito que vem com os personagens da Toy Story... por que não deixar os filhos em casa quando for ao supermercado? Se não para evitar esse tipo de cena (muitas crianças são bem educadas em lugares públicos, vamos deixar isso claro), ao menos pela sujeira do lugar (colocar crianças em carrinhos de supermercado é o mesmo que deixá-las sentar num vaso sanitário público). Eu apoio bravamente a criação de espaços infantis, como cinemas, brinquedotecas, dia dos contadores de história nas livrarias, playgrounds, parquinhos ao ar livre, assim como apoio hotéis e restaurantes com infra-estrutura para receber crianças. Mais ainda: eu apoio as crianças! J. vai além e queria que fosse proibido viagem internacional para os muito pequenos. Eu acho que para tudo tem uma solução: as empresas aéreas teriam menos aborrecimento se disponibilizassem voos semanais em que, no ato da compra da passagem, já estivesse discriminado que é permitida a presença infantil naquela aeronave. Um voo semanal. Pronto. Quem não quisesse se incomodar com as crianças, compraria passagem para outro dia. Ninguém ficaria sem direito de viajar. Porque eu acredito que são medidas como estas que vão tornar a criança mais tarde um cidadão responsável, acostumado aos padrões sociais, à vida em comunidade, às regras e também são medidas como estas que vão educar os pais, deseducados pela nova psicologia infantil. Se não há regra, vira casa de Noca, uma expressão que, na minha terra, quer dizer "Casa da Mãe Joana, lugar onde ninguém manda, onde tudo é permitido". A lei vem exatamente para que pais, como aquele casal do tal bistrô, não invadam o espaço de outros cidadãos. Há necessidade de lei quando há desorganização social. E não vejo maior desorganização social hoje em dia do que essa história de pai baixar cabeça pra filho porque vai ferir os direitos humanos da criança. Um "não" hoje em dia tem que trazer toda a retórica para conseguir sustentar um poder que é inerente à condição de pai ou mãe. Na minha época, pai disse "não", era não. Não tinha que explicar o porquê. Ninguém ficou traumatizado com um não sem argumento explícito (porque, sim! Todo pai tem seus motivos - e bons motivos - para negar alguma coisa ao filho). Conheço grandes personalidades da minha idade que receberam muito não dos pais e nunca discutiram com eles. Hoje em dia, a gente vai a um restaurante e as crianças ficam brincando embaixo da mesa, mexendo nos talheres das mesas vizinhas, correndo entre os garçons, quase derrubando as bandejas que eles, verdadeiros malabares, conseguem segurar para que não haja um incidente mais grave (para a própria criança, inclusive). Antigamente, quando íamos com nossos pais aos restaurantes ou a qualquer outro lugar público (inclusive festas infantis), bastava um olhar para que entendêssemos que aquele não era ambiente para determinados comportamentos. Hoje, é assim: "filhinho, vem cá, meu amor! Senta aqui, olha no meu olho, deixa eu explicar porque você não pode correr aqui dentro", enquanto a criança puxa a toalha da mesa pra enfiar no nariz e quase derruba os copos! Então, fiat lux, né pessoal! Alguém tem que colocar ordem na casa! Vão reclamar de quê?

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