segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Porque os filhos crescem



O título deste texto não é uma pergunta. É uma resposta. Ao apego exagerado dos pais às suas crias. Muitos dirão que este texto é duro, que é pessimista, que é um tanto cruel. Não é nada disso, relaxem. Relaxem mais sobre seus filhos ao longo da vida. Relaxem mais sobre vocês mesmos, como pais e mães. Como educadores, como protetores. Porque os filhos crescem. A vocês, só restarão as lembranças. As doces lembranças, as doloridas lembranças, as amargas lembranças, as eternas lembranças. Lembranças que – tenham certeza – vocês farão de tudo para não se apagarem. Mas elas serão as únicas coisas que vocês poderão guardar. Guardem os primeiros pares de meias dos seus bebês, envoltos em sachês de lavanda. Guardem as caixinhas coloridas com os trabalhos escolares de seus filhos pequeninos. Guardem as fotos de momentos mágicos em família. Guardem o dia em que começaram a andar, a primeira palavrinha pronunciada, o primeiro choro de fome, de dor, de pedido de ajuda. Guardem o primeiro sorriso, a primeira tristeza. Guardem as primeiras confidências, o primeiro namorado, o primeiro pedido de colo, a primeira alegria, a primeira briga. Aliás, guardem todas as brigas, porque elas ensinarão a vocês dois muito sobre ambos. Guardem todas as vezes em que os olhares confidentes de seus filhos procurarão os seus olhos compreensivos. Todas as vezes em que eles lhes chamarão no meio da noite e todas as vezes em que eles pedirão para vocês não incomodarem. Guardem as vitórias na escola, as decepções com os amigos, as rejeições dos grupos, as notas baixas. Mas não queiram guardar seus filhos em gavetinhas para tirá-los de lá antes das refeições e sentá-los à mesa, todos os dias. Ensinem a eles o caminho para voltarem sempre que quiserem ou que precisarem. Não emoldurem os filhos em cimentos de proteção. Emoldurem o que acharem que seus filhos mereçam nas paredes da casa que serão sempre dos pais deles. Porque a casa dos pais não será para sempre a casa dos filhos. Nem os filhos esperam por isso. Eles anseiam pelo mundo, pelo próprio espaço, desde que saíram de suas mães. Não tenham ilusões de volta. A volta será a mesma que vocês fizeram à casa de seus pais: uma breve visita. Um almoço de domingo. Um telefonema durante a semana. Porque os filhos crescem. Porque eles precisam viver suas vidas, porque eles querem viver suas vidas. Aos pais, às mães, as lembranças. Mas, ao contrário do que muitas vezes acontece, tentem não se magoar com as escolhas de seus filhos. Não sintam ciúmes das vidas que eles construírem. Aplaudam as conquistas e aceitem de bom coração o lugar que foi reservado a vocês: o lugar da saudade. Um lindo lugar, por sinal, se vocês pensarem que só sentimos saudade do que valeu a pena. Porque os filhos crescem... numa velocidade assustadora. E eles vão precisar de seus conselhos, de seu apoio, de seu sorriso. Eles não precisam é de suas lágrimas, de seu sofrimento, de sua incompreensão, como corvos observando com olhos vazios a despedida. Eles não querem pais tristes e deprimidos. Eles querem ter a chance de reencontrá-los como seus velhos amigos. Aqueles que dividiram uma parte preciosa da vida: a infância e uma pouca parcela da juventude. Os pais precisam entender que os filhos crescem. Simplesmente porque é a lei natural da vida.

(Em homenagem a mim, que procuro entender todos os dias, há 15 anos, que a minha "bebê" está crescendo, independente da minha vontade... e quero ser sempre uma pessoa feliz por ela, para que a cada reencontro, nós possamos nos sentar como grandes amigas de uma vida inteira... quando eu estiver com 78 anos, terei uma filha de 60 e isso é o maior presente que a vida me deu – a oportunidade de envelhecermos juntas, vendo este século acontecer, amém)!

3 comentários:

mariajoao disse...

Amém, amém e amém!

Ezilda Cláudia de Melo Calazans disse...

Minha linda Kare, e minha fofíssima Carolzinha, como não me emocionar com um texto tão lindo, tão cheio de significados? É a pura verdade e os pais e mães que não enxergam isso sofrem a vida toda. Amo vocês e fiquei muito feliz ao ver essa foto. beijos

Larice disse...

Ontem o meu bebê fez 16, senti um pouco de mim na sua história. Sempre é assim com os bons textos, nos faz crer que o autor compreende totalmente aquele sentimento íntimo sobre o qual não havíamos ousado refletir. Chorei. Pensei na minha mãe,além dos meus filhos. Pensei que 78 e 60 tbm é a minha conta...uma boa conta,um bom canto, um bom conto se for vc quem escrever. Saudosa de sua enorme sensibilidade e lastimosa por ter perdido tanto de sua companhia nesses anos. Um grande abraço! Larice