segunda-feira, 16 de maio de 2011

A lenda de Montmartre e Midnight in Paris


Bal du Moulin de la Galette, Montmartre. Renoir, 1876.

Quando nós acordamos naquela manhã em Paris, J. sabia exatamente aonde me levaria. Eu também sabia, porque ele havia me dito na véspera. O que ele não me disse, mas eu li nos olhos marotos de quem está querendo me pregar uma peça, era que Montmartre seria meu lugar preferido na Cidade-Luz. E ele já sabia disso quando planejou tudo para aquela manhã. Conhecido como o mais boêmio bairro da capital francesa, Montmartre desde sempre foi frequentado por artistas de todas as gerações e guardou essa magia de ruas que viraram quadros famosos, lugares onde aconteceram inesquecíveis espetáculos, moinhos onde se vendiam bolos, pães e leite para pacatos criados que serviriam a mesa de seus senhores. A colina de Montmartre abriga a Basílica do Sacre Coeur, que recebeu esse nome porque, segundo a lenda, lá teria sido o lugar de martírio do primeiro bispo de Paris, no século III. Também foi lá que a Companhia de Jesus foi fundada, por Santo Inácio de Loyola.
Naquela manhã, descemos na estação de metrô e optamos por não embarcar no funiculaire até o alto do morro, porque J. também sabia o quão prazerosa seria para ambos aquela subida pelos degraus da Sacre Coeur. E ainda naquelas ruas, cheias de cafés, até chegar à frente dos degraus, meus olhos já pareciam duas crianças querendo soltar a mão do pai e sair correndo e pulando, pulando e dançando a dança maluca das crianças felizes! Cada pintura, cada rabisco, cada arte de rua pra mim, ali, era o mais perfeito quadro francês! As gravuras, que tanto amo, pareciam querer vir todas pra minha bolsa, me chamavam, cantando La vie en rose enquanto eu flutava pelas calçadas. Daí eu vi o carrossel!!!! E eu tive novamente 13 anos de idade! Meu coração saltava e eu queria gritar "você é lindo como uma história da carochinha" pro meu marido, parafraseando o poeta moderno! Mas eu só conseguia sentir meu coração saltar em trotes largos dentro do peito! E subir os degraus foi fácil, porque eu estava tão empolgada que poderia ter subido num fôlego só! Lá de cima, na frente da catedral, admirei Paris com o estômago (dizem que quando uma emoção é muito forte, você a sente com o estômago. Sabe no dia do casamento, que você não consegue comer nada? Ou enquanto você espera o resultado de uma prova de que você gostou muito e é tão importante pra você? Aquela pontada no estômago que te faz suar frio e a sensação de prazer que vem junto com o final... as pernas bambas, o nó na garganta... emoções fortes são estomacais). Depois ele me abraçou, no frio daquela manhã, me apontando pacientemente em meio àquela paisagem onde estavam a Torre Eiffel, a Notre Dame, o rio Sena, então caminhamos feito adolescentes, que vão fazer alguma coisa juntos pela primeira vez, até a praça central... os artistas, as lojinhas, as vitrines mágicas, tudo era motivo de felicidade! E tinha um mendigo tocando flauta e tinha um senhor com seu realejo e mais um outro com relógios-cuco e tinha aquela loja de doces colorida e o oriental fazendo tartiflette num grande tacho de ferro (esperamos 40 minutos pra comer a iguaria em pé, numa esquina, com talheres descartáveis... e foi a refeição mais prazerosa daqueles dias em Paris... ainda posso sentir o cheiro do reblochon com pimenta-do-reino) e tínhamos nós dois e todo o Montmartre. De repente, caíram uns floquinhos discretos de neve... e eu só não chorei porque alguns brasileiros, tão envaidecidos quanto eu, começaram a gritar e quebraram todo o encanto de um momento que devia ser só nosso! E eu quase voltei à realidade... se ele não tivesse me puxado pra perto do peito e me beijado pra dizer que sim, aquele ainda era o meu conto de fadas! No outro dia, bem... depois de sairmos tontos de um museu, adivinhem onde pensamos em jantar um autêntico moules-frites? Em Montmartre (dessa vez, subimos de funiculaire)... e caminhar novamente sobre aquelas calçadas não me pareceu familiar! Era tudo mágico e único novamente! Era a primeira vez, de novo!
Agora vem o Woody Allen com esse filme sobre a noite em Paris... que eu mal posso esperar pra assistir! Que segredo Montmartre ainda me revelará? O que mais de mim aquele bairro ainda tem pra contar?

A todos, à bientôt!

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