sábado, 16 de abril de 2011

Papel manteiga para embrulhar segredos


Não sei se já falei desse livro aqui, mas na vaga lembrança das coisas que escrevo, só tenho ele registrado num e-mail que mandei, certa vez, a uma amiga por quem tenho um carinho enorme. Estávamos falando sobre as últimas leituras e comentei sobre Papel Manteiga para Embrulhar Segredos, um livro de Cristiane Lisboa*, publicado em 2006 pela Ed. Memória Visual. Especialmente essa semana, quando entrou em vigor a lei que proíbe o uso da burca pelas muçulmanas na França, eu tenho lembrado muito desse livro. Tudo porque é uma história simples, contada a partir das cartas de Antônia, a personagem principal, para sua bisavó. Antônia é filha de uma feminista convicta e resolve fugir de casa para fazer um curso de gastronomia. A cada página, entre os relatos de aprendizados sobre a arte de cozinhar pratos salgados e doces, Antônia também deixa ao leitor uma nova receita (as receitas que estão no livro são da gastrônoma Tatiana Damberg).

Fica aqui um trechinho do livro que explica porque ele é tão bom... e depois, quando eu fizer e fotografar, coloco aqui uma receita bem fácil tirada de lá, para vocês testarem.

Bisa

Já lhe contei que, desde que aprendi a falar, rezo para que mamãe me perdoe pelo que sou? (...) O movimento feminista deixou estrias profundas nela, não é? Mas não acredito que venha apenas daí a ojeriza às chamadas "coisas domésticas": cuidar da casa, cozinhar e matar formigas. O trauma deve ser mais profundo, mais lamacento, mas uma desculpa ideológica é sempre o escudo seguro para o que dói na alma.
O fato é que mamãe nunca me perdoou por aprender a fazer bolo antes de entender o que significava submissão. E me detestou com vontade a partir do momento em que discordei de suas crenças, admitindo que amava o ambiente doméstico e, sobretudo, as cozinhas. Como se isso fosse vergonha, como se para ser uma mulher moderna eu precisasse mentir que não gosto de panos de prato. Entendo que o sexo é político, abomino mutilações como as que acontecem em algumas tribos africanas e, claro, sou a favor de algumas coisas que ela defende, mas Bisa, minha luta é outra. Mulheres não precisam ser masculinizadas para que exista respeito. Em momento algum é preciso fingir que não temos, lá dentro, um sentimento arcaico de servir sabor a quem amamos. (...) Então, quando fui selecionada para este estágio, apenas saí, exausta daqueles anos todos de combate e de luta por uma igualdade na qual não acredito. Porque a opressão depende de quem a recebe. Como quando uma moça libanesa foi indagada sobre o véu e disse que ser obrigada (a usá-lo) era chato sim, mas que ela usava por outro motivo. Porque gostava de se mostrar inteira apenas a quem realmente merecesse. E que tristes mesmo eram as ocidentais, se escondendo o tempo todo, dentro e fora de casa, atrás de maquiagens e plásticas. Ela está errada?
(pág.49-50)

*Além desse livro, a autora possui ainda duas publicações: Pequenos pedaços soltos de histórias de amor às vezes verdadeiras (Ed. Fina Flor, 2002) e Deles e quase o resto (Ed. Fina Flor, 2004). Este último foi adquirido pela grife paulistana Madalena, que aplicou os contos em saias, vestidos e blusas da coleção "literatura inclusa" (eu daria tudo por uma peça dessas)!

K.

2 comentários:

Ana Virgínia disse...

oi.

legal seu comentário sobre esse livro.

fiz uma resenha para participar do desafio literario.

bjo

filhadejose.blogspot.com

Um de nós. disse...

Oi, que bom que vc gostou! Espero que tenha sido útil! E não deixe de passar aqui para dar o resultado do desafio literário. Vou ficar na torcida! Bjs