sexta-feira, 25 de março de 2011

A senhora sua mãe!


(Operários - Tarsila do Amaral, 1933)

Estava aqui, vendo as notícias nos jornais sobre o mundo, quando me veio a ideia desse post e, antes de perder o fio da meada, já vou servindo um texto novo pros que acompanham as (poucas) publicações desse blog. Prometo ser mais presente neste ano, aguardem! Bem, mas sobre o que me trouxe ao assunto de hoje: como o mundo tem se mostrado intolerante, não? Parece que quanto mais a gente fala no assunto em casa, nas escolas, mais a coisa parece degringolar de uma vez... é intolerância religiosa, política, étnica, cultural. O homem puxando suas armas e matando, humilhando, destruindo. Parece que a paciência e a humildade estão ficando cada vez mais perdidas e daí eu me pergunto como pode, ainda nos tempos em que vivemos, com uma liberdade de expressão tão forte, com os meios de comunicação tão presentes e tão equipados, com a facilidade maior que as pessoas têm de conhecer o mundo, de experimentar o novo, ainda haver tanta intolerância entre os seres humanos? Não falo apenas de grandes acontecimentos, mas do preconceito de uma maneira geral, aquele escondido nas entrelinhas do discurso de nós mesmos. Havia uma propaganda, não me recordo agora em que canal de tv, que fazia a seguinte pergunta: "onde você guarda seu preconceito?". E as pessoas respondiam ao repórter, nas ruas de uma cidade, coisas do tipo: "guardo meu preconceito na figura de um homossexual", ou "guardo meu preconceito no fato de não me sentar junto a uma empregada doméstica". Alguns ainda, vergonhosamente, respondiam: "guardo bem escondidinho, pra ninguém ver". E a propaganda terminava com a frase: "Não guarde seu preconceito. Jogue fora!". Genial! Mas, infelizmente, nós crescemos nos alimentando de discursos inexpressivos sobre o mundo, a preocupação que nossos pais tiveram em não apenas digerir junto conosco uma ideia preconceituosa, mas trabalhar ao nosso lado a reconstrução de um estereótipo sempre foi mínima. E o estereótipo é nada mais que uma ideia ou modelo que se estabeleceu como padrão e vai gerar o preconceito. São quase sinônimos. A diferença é que, no estereótipo, de tanto a gente ouvir sobre uma determinada coisa, termina assimilando aquilo como verdade, mesmo "aquilo" não tendo um fundamento sério. Já o preconceito é tudo isso com uma pitada de intolerância. É como se alguém achasse que pessoa de uma classe social inferior a sua não pudesse comprar uma roupa da mesma marca que ela está usando e ainda dissesse que nunca mais iria vestir aquela roupa, porque viu um "pobre" usando uma igual! Intolerante! Preconceituoso! Dia desses, estávamos conversando entre amigos, quando falei da preocupação que disseminei aqui em casa em tomarmos vermífugo ao menos duas vezes por ano. Foi quando um de nossos amigos, de pronto, ligou o que eu dizia ao fato de eu ser nordestina. Na hora, é óbvio que eu não falei nada, até porque esse é um típico caso de opinião sem fundamento, estereotipada. O que eu poderia argumentar? Que na minha família, pelo fato de meu pai ser médico, sempre houve a preocupação com a higiene do organismo, uma vez que todos nós estamos sujeitos às giárdias, lombrigas e oxiúrus, independente da região onde moramos? Às vezes a oportunidade para a discussão é imprópria, faça-me o favor! Até por uma questão de respeito à ignorância alheia. Nem todos temos a consciência do dever quase pátrio de conhecer as realidades do próprio país. Eu conheço porque me interessei por isso. Eu sei, por exemplo, que João Pessoa (a minha cidade) tem um dos melhores sistemas de saneamento básico do País, diferentemente de Floripa (a minha não menos cidade), que tem um dos piores. Apenas 50% da Ilha tem saneamento básico, isso é uma vergonha! Pela lógica, a população de Floripa deveria tomar mais vermífugos, mas isso não vem ao caso. Em compensação, João Pessoa ainda deposita seu lixo hospitalar no mesmo aterro dos resíduos urbanos, o que é imperdoável! Mas saber esses detalhes só ajuda o cidadão a respeitar seu território e lutar, em uniformidade, pela melhoria de seu país. Nada de separar elites. Nada de fragmentar responsabilidades. Nada de um ser melhor que o outro em cor, cultura, naturalidade. Todos somos iguais, senão na lei, na matéria de que fomos feitos. Na mesma matéria putrefáctil de que fomos feitos! Não adianta matar por poder, xingar por rejeição, humilhar por vaidade. Adianta trabalhar a mente a fim de que o que hoje soe como opinião estereotipada, amanhã não se torne preconceito. Porque se nós continuarmos colocando em nossa mesa salame italiano, linguiça alemã, queijo feta, patê francês, pão sírio, queijo minas e feijão fradinho e não soubermos respeitar tudo isso, é porque estamos servindo o que temos de melhor à Sra Ignorância, mãe de todos os preconceitos!

A todos, bon appétit!

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