sábado, 19 de março de 2011

A excêntrica cozinha Peranakan

Hoje eu quero começar esse texto com uma citação de um livro que estou finalizando neste exato momento. Chama-se Variações sobre o prazer, de Rubem Alves. É um conjunto de resenhas sobre as obras de Santo Agostinho, Nietzsche, Marx e o filme A festa de Babette. Diz assim: "Como são tolos aqueles que pensam que o prazer é preguiçoso. Somente os prazeres pequenos e imediatos são preguiçosos. Dos grandes prazeres nasce o trabalho e a disciplina, porque eles só podem ser encontrados ao fim de um árduo caminho". Pois que é isso! Servir é um dos grandes prazeres, já que servir pressupõe escolher, combinar, preparar, vigiar, provar e, por fim, enfeitar! Isso resume bem o estilo da cozinha de que vou falar hoje: a cozinha peranakan, muito difundida na terra de onde acabo de retornar.
E, para falar sobre a comida de Cingapura, preciso antes falar sobre as pessoas que construíram a identidade desse lugar. Cerca de um terço da população é de origem chinesa e, muito embora outra grande maioria se concentre entre descendentes hindus e árabes, o que eles chamam de "cultura peranakan", que caracteriza parte da população que vive no território, é consequência da miscigenação entre indígenas malaios e os primeiros colonos chineses.



Jairo, em um autêntico Food Republic, num shopping da cidade



Camarões servidos em uma cumbuca de noodles
Com o decorrer dos séculos, o termo "peranakan" também desenvolveu seus próprios costumes. E, como tudo em Cingapura, tornou-se mais um detalhe excêntrico. É como observar um quebra-cabeça já montado ou um jogo de palavras cruzadas finalizado. Tudo se encaixa perfeitamente. Não há resquício do aparente caos inicial.



Prato java, extremamente apimentado

A cozinha Peranakan junta tudo isso e oferece, em seus pratos, algo de divertido, diferente e um tanto apimentado. Absolutamente diferente da comida chinesa original (não a que conhecemos como chinesa), que fique de uma vez esclarecido esse ponto aqui. E eu, que adoro uma novidade, já comecei a sentir que o Oriente não está pra brincadeira ainda na primeira estada em Dubai, onde o inconfundível cominho é simplesmente polvilhado sobre todos os pratos. É quase um deus onipresente, não fosse eu tão arbitrária quanto ao uso indiscriminado desse condimento (aqui em casa, sou praticamente uma déspota ao regular a dosagem do cominho, quando esse é realmente necessário). E, mesmo assim, para mim, o grande problema não foi o cominho árabe. Mas o indigesto - ao meu paladar - do que é puramente chinês: o umami, aquele quinto sabor que a língua pode sentir (que não é doce nem salgado... o glutamato monossódico, muito utilizado na cozinha oriental, exemplifica esse sabor).

Vitrine de carnes chinesas, adocicadas
Por Deus, como eu prefiro que errem a mão no sal ou no açúcar, mas que não me venham com meio termo ou ecletismos! Até porque a minha personalidade nunca brinca em serviço e eu sei bem exagerar. Nos dias em que eu chovo, provoco tempestades. E nos dias que abro sol, insolação. Se não quero chuva ou sol, ninguém sabe de mim. Não agrado a gregos nem a troianos. Ou agrado ou desagrado. E até já tentei mudar, mas depois que o umami se personificou nesses dias na Ásia e começou a conversar comigo num quarto gélido de hotel , bati o pé: comer pra manter o corpo vivo não é comigo. Eu gosto é do prazer.

Só pra olhar
E a cozinha peranakan é um verdadeiro prazer! Há a curiosidade sobre o desconhecido, o alívio da descoberta, o deleite e, finalmente, a sensação de pertencer àquilo! De ter experimentado, de ter estado ali! Assim como a música ou a poesia, a culinária peranakan fala por si. A mistura de condimentos, a riqueza de ingredientes e o colorido dos pratos não deixam dúvidas: eis o novo! Não apenas o novo, mas o diferente. Desde os nomes das comidas ao improvável ingrediente que as compõem.
E as frutas, ahhhh! Frutas estão por toda parte, daquelas mais conhecidas à famosa durian (cujo cheiro exala pelas ruas e não é nem um pouco agradável - lembra o formato de uma jaca, mas é bem menor e os caroços dentro dela são gomos macentos, que lembram algo mofado) e há barraquinhas de sucos em toda esquina. Não apenas de sucos, mas de irresistíveis espetinhos de frutas (uma prática comum entre os habitantes de Cingapura é comer um espetinho de fruta para aliviar o calor - já que a Ilha fica a 130km da linha do Equador e a umidade até incomoda mais que a temperatura). Há espetinhos de todas a frutas que a gente imaginar: melancia, melão, jaca, tangerina, morango, kiwi, jambo...

As barraquinhas de espetinhos de frutas










Espetinho de jambo
Nos Hawker Centers, populares praças de alimentação espalhadas por toda a cidade (muitas vezes, a céu aberto), a gente encontra toda a diversidade gastronômica por nada tão mais caro que cinco dólares.
Um hawker center - sirva-se!
E não precisa ter medo da higiene, porque, como falei em outro post, as leis por lá são rígidas e as normas para manter um estabelecimento gastronômico não são diferentes (se tudo lá funciona, logo a higiene não seria exceção).
O prato principal de Cingapura é, sem dúvidas, o badalado chilli crab. Em 1950, o caranguejo apimentado foi criado por um casal (Cher Yam Tian e o marido, Lim Choon Ngee) em um momento de descontração na cozinha de casa (talvez por isso tenha encantado tantos paladares ao longo desses anos, que concorde comigo quem já viu os clássicos Tomates verdes fritos ou Como água para chocolate). Basicamente, a receita se vale de tomates maduros, pimentões vermelhos, cebola, sal, muita pimenta e os enormes caranguejos do Sri Lanka. Em muitos restaurantes da cidade, eles vêm acompanhados de bolinhos caramelizados chineses, para serem comidos com o molho, o que é absolutamente dispensável, se você estiver tomando uma Tiger gelada.
E, para finalizar, deixo aqui uma foto desse prato, que é de dar água na boca. E, se um dia forem a Cingapura, a palavra que não devem esquecer de levar na mala é: experimentem!
A todos, bon appétit!
K.

Um comentário:

mariajoao disse...

Você está muito chic!!! O blog foi parar em Cingapura?! Nossa! Mandou bem no post! Saudades! Beijos!!