quinta-feira, 10 de março de 2011

Entre o Islã e o Ocidente - uma revisão de conceitos

(Atendendo a pedidos, publico aqui esse texto - desculpem-me fugir do tema do blog, mas logo logo também estarei publicando um pouco do que aprendi sobre a cozinha Peranakan)

Quero dizer, antes de mais nada, que enviar este texto é uma decisão de extrema coragem e audácia, porque eu sei que a maioria dos leitores vai, em bom português, "cair matando" em grande parte das afirmações que estarão presentes aqui. Mas não há outra forma de falar sobre minha experiência na Ásia, senão abrindo (e deixando aberta) a polêmica sobre aqueles que, sem a menor sombra de dúvidas, vão dominar o mundo em um futuro muito mais próximo do que muitos gostariam de admitir. A grande verdade que eu vi nos dias em que convivi com aquele povo foi essa: o Oriente coloca os conceitos da moderna psicologia ocidental no chinelo e ainda bate a poeira pra não levar de nós nem o pó. Antes de continuarem a leitura, proponho fazerem uma pesquisa rápida (ali, no Google mesmo) sobre Cingapura, para começarem já sabendo que aquele é o país com um dos maiores números de milionários no mundo e, antes mesmo de completarem os 18 anos, muitos dos jovens de lá já ganharam seu primeiro milhão; é também o país com um dos maiores crescimentos do PIB, maior segurança nas ruas e residências, índice zero de assaltos, onde 90% da população tem imóvel próprio, 98% é alfabetizada, não há poluição nos rios, não há lixo nas ruas, todos falam pelo menos 2 idiomas (sendo um deles obrigatoriamente o inglês), não preciso dizer que não há favelas ou ocupações ilegais e os jovens são preparados para assumir os melhores cargos empresariais desde o jardim de infância. Tudo isso em um país que, à primeira vista, lembra-nos uma imensa torre de Babel, com hindus, muçulmanos, cristãos e até ateus vivendo em completa harmonia. Dentro desse quadro, a peculiaridade que faz com que a máquina funcione é mais simples do que pode parecer: para qualquer passo em falso, há uma severa punição. Situações como venda de revistas pornográficas, beber ou comer no metrô, acesso a sites de prostituição (mesmo dentro da própria residência) são punidas com multas cujo valor é absurdo (você pode, por exemplo, ter que pagar mil dólares ao Estado, caso resolva matar a sede com uma simples garrafa d'água dentro de um vagão do metrô). Bebidas alcoólicas e cigarros são caríssimos, o que evita que a maioria da população termine se viciando. E, para fechar esse pequeno resumo, antes de pousar em território cingapuriano, você é avisado que a simples tentativa de entrar no país com algum tipo de droga (maconha, cocaína ou medicamentos entorpecentes proibidos pela lei do lugar) caracteriza pena de morte. Encara? Bem, a construção dessa sociedade ideal durou apenas algumas décadas (Cingapura foi emancipada como Cidade-Estado em 1965). E como eles conseguiram organizar a casa tão rápido? Simples! Lá não há meio termo: apesar de Cingapura ter uma política democrática parlamentar, os valores democráticos liberais não têm vez e, mesmo possuindo elementos do direito inglês (seu colonizador), lá não há julgamento. Há a aplicação da pena que o Estado considera adequada para cada caso de infração. O que é certo é certo. O que é errado, é errado. Sem discussão. Na escola, por exemplo, desde cedo as crianças convivem com palavras como punição, pena e multa. Uma simples brincadeira de desenhar a professora ou o coleguinha na carteira é classificada como ato de vandalismo e a pena para o delito é nada menos que 60 bambuzadas aplicadas pelo Estado. O grande detalhe é que a pena só precisou ser aplicada, até hoje, uma única vez, contra um aluno imigrante. Bem, eu não preciso falar que as bibliotecas de lá não proibem a entrada de pessoas portando canetas, não é? Simplesmente porque, mesmo que as pessoas entrem com canetas, nenhum livro será depredado. Desde cedo, as crianças sabem por quê vão à escola. Não estão lá para brincar. Os desenhos, no jardim de infância, não medem apenas as capacidades motoras e pedagogos e psicólogos fazem um trabalho conjunto voltado exclusivamente para as aptidões profissionais do pequeno estudante. Um aluno com cinco anos de idade já começa a delinear seu perfil profissional e seu currículo estará sendo constantemente avaliado por profissionais que o direcionarão para a carreira que melhor lhe definiram os anos na escola. Não preciso também dizer que teste de QI lá é uma grande brincadeira, não é? Todos são inteligentíssimos por natureza e apenas a dedicação maior ou menor aos estudos é que garantirá se um estudante irá para a Universidade ou para um curso técnico (aos 12 anos eles já têm essa resposta e o Estado é rigoroso na seleção dos perfis que cursarão o ensino superior. Se não estudar, não pode frequentar universidade em Cingapura. E se o currículo for muito ruim, nem curso técnico pode fazer. Vai direto para empregos como atendente de fast food. Lembrando também que os melhores alunos são recrutados para cursos de Licenciatura, pois a formação profissional das novas gerações deve ser garantida por pessoal de ponta... também acho que não preciso dizer que professor é o profissional com melhor remuneração lá, não é?). Muitos devem estar pensando assim: "essas pessoas são robôs"! E eu também pensava. Acontece que, antes de visitar Cingapura e Dubai, ouvi muitos relatos e experiências de meu marido. E a opinião dele é realmente uma das que mais valorizo na vida. Primeiro, porque ele é uma pessoa extremamente observadora (não fala nada sem antes passar a informação pelas famosas três peneirinhas), depois porque ele conviveu não apenas com as ruas de Cingapura, mas com as pessoas que estão no mercado de trabalho de lá. Além disso, poucas pessoas falam com tanta firmeza e convicção sobre religião como ele. Tudo isso porque sempre estudou muito o tema e também já passou por sua fase de descrença (atualmente, ele tem lido o Alcorão em inglês e feito muitas comparações relevantes para as semelhanças entre as religiões). Quando eu questionava determinadas regras que me pareciam absurdas ou demasiado retrógradas, ele sempre me respondia com um bom argumento: "Amor, quando você conhecer Cingapura, você vai ver que tudo lá dá certo. Pode parecer absurdo, mas tudo lá funciona. Aqui funciona?". Não, minha gente! Aqui não funciona. As leis são inócuas, a corrupção é relevante no nosso modelo político e a hipocrisia ainda é a cárie social por aqui. Um outro ponto importante levantado pelo meu marido nessa discussão toda diz respeito às leis religiosas. Cingapura, apesar de ter sido colonizada por um país que possui um sistema de leis dos homens, recebeu uma grande influência de culturas que ainda são regidas pelas leis de Deus, como os países de maioria islâmica (Indonésia e os do Oriente Médio, sobretudo). Talvez por isso Cingapura adote um modelo tão rígido dentro do que chama de sociedade democrática (lembrando também que a prática do comunismo lá é crime). E por que nós chamamos de rígido? Porque, apesar do Islamismo ser muito mais recente que o Cristianismo, é regido por textos extremamente objetivos que deixam claro o que definem como certo ou errado, não dando margem a outras interpretações. O que pra nós parece retrógrado nada mais é do que um sistema mais novo e preciso. O meu grande espanto diante de tantas ideias concatenadas veio ainda no primeiro dia em que estávamos passeando despretenciosamente pela cidade, a caminho do zoológico. Pegamos um ônibus e pessoas em idade escolar, dentro daquele automóvel, estavam fazendo o percurso com livros abertos, estudando gráficos, retas, ângulos... concentração. Manhã de domingo. Na chegada ao zoo, para meu espanto, eles guardavam seus livros e tiravam das mochilas as câmeras de última geração, posicionavam-nas nos tripés (TRI-PÉS, gente!!!! Todo adolescente lá tem um) e passavam o dia em busca da foto perfeita! Jovens com a idade da minha filha se divertem em karaokês, sentam-se à beira do rio com suas garrafas de chás gelados, fabricam o avatar de si mesmos e andam pelas ruas vestidos de super-heróis, com cabelos pintados ou perucas coloridas, ficam até tarde da noite praticando street dance ou usando seus laptops em espaços públicos, sem o menor perigo de serem assediados por traficantes ou assaltados por drogados fissurados. Eles namoram, tomam coca-cola, comem de palitinho, andam de skate, praticam esportes radicais e ninguém que os vê nessa animação pode duvidar de que sejam realmente felizes. Porque eles são! Eles cresceram num modelo social que para nós parece absurdo e eles não frequentam psicólogos! Eles não matam nem se matam (Cingapura é o país também com o menor índice de suicídio de todos os tempos) Os jovens de Cingapura conhecem seus direitos e cumprem seus deveres, tudo isso sem serem obrigados a conviver com as moléstias que nós tentamos combater diariamente na nossa sociedade. Agora, eu pergunto: eles sabem que, se saírem da linha, serão castigados? Sabem! Os pais deles sabem que não há uma divisão de responsabilidades entre escola e família e que todos são responsáveis em grau maior por uma criança? Sabem! A escola sabe que a única maneira de garantir que esses jovens sejam os melhores do mundo está na qualificação profissional para a sala de aula? Sabe! E o Estado, exerce ativamente a sua responsabilidade com os cidadãos? Exerce. Se é certo ou errado, que julguem os que acharem uma saída para nosso caos. No momento, eu ainda prefiro acreditar nos meus olhos!

Um comentário:

Juliana Holanda disse...

Fiquei impressionada ao ler seu relato. É, nós somos os atrasados. Álccol e todo tipo de droga ao alcance de todos aqui, justamente para iludir os sentidos, para não deixarem as pessoas refletirem o quanto a vida vai mal, o quanto o Estado rouba suas vidas, sua educação, seu futuro promissor.