terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Les cuisines de Chenonceau - uma viagem ao Vale do Loire


Pertinho de Paris, seguindo os caminhos da antiga nobreza, está uma região de beleza clássica na França: é o Vale do Loire, conhecido pelos castelos (ou châteaus) construídos à beira do Rio Loire por reis, duques e outros nobres da época. Muitos desses châteaus foram casas de campo onde reis, como Luís XIV e Henrique III, iam descansar das obrigações da Coroa.
De Versailles, residência oficial da Coroa francesa, siga pelos caminhos de Orleans e descubra as maravilhas do Vale do Loire. Nosso roteiro incluía no máximo 3 castelos por dia e uma cave para degustação de vinhos, ao final do dia. O Vale também guarda algumas denominações importantes de vinhos franceses (A.O.C.), como o Chinon, o Touraine Amboise, o Cremant de Loire e o Touraine Azay-Le-Rideau. Para os apaixonados pela enologia então, é mais um atrativo que a região oferece.
Nosso roteiro começou na cidade de Amboise (onde, no jantar comemorativo de chegada, optamos pelo vinho da região, harmonizado com um requintadíssimo fricassé de scargots), seguimos para Chenonceau, depois Villandry, Azay-Le-Rideau, Chinon, Blois, Chambord e, por fim, Chartres, antes de retornar a Paris.
Cada château nos deixou uma história linda e uma experiência a ser compartilhada, mas devido ao tema desse blog, achei mais propício falar sobre as cozinhas de Chenonceau nesse texto.

Erguido sobre o Rio Cher, no século XVI, por Thomas Bohier e sua esposa, Katherine Briconnet, o Château de Chenonceau ficou conhecido como "o castelo das damas", por terem habitado ali, entre 1499 e 1972, grandes mulheres da história da França, como a viúva de Henrique II, Catarina de Médicis (que mandou construir um requintado labirinto, até hoje preservado, nos jardins do castelo) e Luísa de Lorena, a viúva reclusa de Henrique III (assassinado por um monge). Mas, o mais impressionante em Chenonceau, além daquela energia feminina que gera em nós coragem e ousadia, é sem dúvida alguma a cozinha (ou as cozinhas) do castelo, que merece aqui uma descrição detalhada: dividido em cinco salas, esse ambiente é metodicamente elaborado para a preparação de qualquer tipo de comida que se possa imaginar: na primeira sala, chamada de copa, há a maior lareira de todo o château e, ao lado dela, um forno para assar pães. São muitos os aromas nessa sala, pois as pessoas responsáveis pelo lugar preparam delicados arranjos de anis, laranjas secas, canela e ervas variadas, deixando-os sobre mesas e estantes. Isso garante ao visitante uma viagem completa ao tempo em que esta cozinha estava ativa. A copa cede passagem à sala de jantar dos habitantes do château (a sala de jantar para banquetes fica no pavimento superior e a mesa é infinitamente maior e elaborada em uma madeira finamente trabalhada), com uma grande, porém muito simples, mesa de madeira e cadeiras convencionais da época. A terceira sala, conhecida como talho, preserva ainda os ganchos onde se penduravam carnes de caça e a coleção de cepos e talhadores usados para provavelmente separar as partes do animal - realmente impressionante! Imaginar aquele lugar com as carnes penduradas não é nem um pouco agressivo, como me parecem os açougues de hoje em dia! Era tão natural caçar para sobreviver, que há um certo encantamento nesses objetos. Ao lado do talho há uma salinha que era chamada de despensa, para armazenar os mantimentos. Do lado contrário a essa sala, tem uma ponte para se chegar à melhor parte: a cozinha propriamente dita, com enormes fogões a lenha, muitas panelas de cobre de todos os tipos e tamanhos, conchas e colheres, amassadores, trituradores, chaleiras, uma verdadeira obra de arte aos olhos gastronômicos! Imagino que ali devia-se comer muito bem (principalmente se trouxessem os legumes e verduras plantados nos jardins de Villandry - mas isso é tema para um outro post). Há nessa cozinha também uma plataforma onde, segundo o livro-guia, os barcos acostavam para trazer os mantimentos até o castelo (já que ele é construído sobre o Rio Cher, como disse antes). E, a informação mais impressionante: durante a 1ª Guerra Mundial, essa cozinha também serviu para transformar Chenonceau em um hospital de emergência, porque continha muitos equipamentos modernos para a época! Enfim, a cozinha de Chenonceau é só mais um motivo para que cada vez eu me convença mais de que a tal revolução feminina tirou das mulheres a oportunidade de preservar o que há de mais feminino em uma cozinha: o grande prazer de enfeitiçar as pessoas através dos banquetes...


K.