quinta-feira, 15 de abril de 2010

A (re)invenção do cotidiano




Faz tempo, mais ou menos uns 6 ou 7 anos, que fui obrigada a ler um livro chamado A invenção do cotidiano, de Michel Certeau. Hoje, remexendo em caixas aqui no escritório, achei meu velho caderno de anotações de aulas daquele tempo e, como nada é meramente por acaso, deparei-me com um trechinho que descambaria nesse texto que ora vos escrevo:

"O cotidiano é aquilo que nos é dado cada dia ( ou que nos cabe em partilha), nos pressiona dia após dia, nos oprime, pois existe uma opressão do presente. Todo dia, pela manhã, aquilo que assumimos, ao despertar, é o peso da vida, a dificuldade de viver, ou de viver nesta ou noutra condição, com esta fadiga, com este desejo. O cotidiano é aquilo que nos prende intimamente, a partir do interior. É uma história a meio de nós mesmos, quase em retirada, às vezes velada. (...) Talvez não seja inútil sublinhar a importância do domínio desta história "irracional" ou desta "não-história",como o diz ainda A. Dupront: O que interessa ao historiador do cotidiano é o invisível..." (p.31).

Pois bem, falemos do invisível! O invisível é aquilo que só pode ser sentido... o cotidiano de cada um é particular demais para ser descrito. Talvez, alguns narrem seu dia-a-dia (há algum lugar que hoje em dia se propõe a isso, o tal Twitter, se não me engano), talvez outros descrevam sensações ou impressões. Mas ninguém retira o véu do seu cotidiano. Ninguém ousa declarar as reais dificuldades diárias. "Oi, tudo bem?", "Tudo, e aí?"... quem é que abre pro síndico que coisa nenhuma vai tão bem assim que mereça essa resposta? Mas nós a damos cotidianamente, porque somos atores. E isso não é um problema. Ao contrário. Chamarei isso da (re)invenção do cotidiano. Nem todo dia a casa tem cheiro de casa, a comida fica no ponto certo, a sala está quentinha ou as plantas estão molhadas. Eu não tenho obrigação de me expor tanto assim. Há alguns segredos que são intransponíveis, irreveláveis. E para eles, as máscaras. Nem sempre um sorriso é o que parece. Muitas vezes é o que gostaríamos que fosse. Motivação e atitude. Necessidade!
Em grego, sentir Deus dentro de nós cabe em uma palavra: enthusiasmós! Então, só porque posso sentir Deus dentro de mim, sinto o entusiasmo de tudo aquilo que ficou morto esses dias e quer nascer de novo: as plantinhas, a comidinha, a casa perfumada e quentinha.... é o milagre da chegada do meu amor, que dá vontade de resolver meus problemas e me jogar nesse abraço... que não tardará!

K.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Ah, o outono na Ilha...

Pois que o outono na Ilha de Santa Catarina tem sempre o mesmo sabor: aquele gosto mineral de águas salgadas, por onde tantos navegadores fizeram suas descobertas! Sâo lindos dias que precedem a chegada do frio cortante do Sul. Céu limpo, brisa fresca, pessoas com cara de paz! Nesses dias, não são raros os almoços em boa companhia pelas praias que nos fazem crer no poder da Mãe Natureza sobre tudo. Essas fotos foram de uma linda manhã desse início de outono, na Praia do Forte, norte da Ilha. O restaurante do Lobo é um desses restaurantes com cara de pescador, que te serve aquele peixinho recém-pescado, preparado na brasa, dando-nos ainda a oportunidade de saborear esse momento com os pés na areia. Na fotos, nossas entradas: ostra ao natural (de comer rezando) e a imponente ostra à espanhola... que impresiona mais pela beleza que pelo sabor - o toque do vinho tinto num prato que exige a delicadeza do branco não o faz chamar atenção pelo sabor, ao contrário! Parecia que eu tinha lambido um poste enferrujado! Mas como estou falando da tal "beleza de se ver", vale a foto abaixo:
Enfim, para encerrar, fica um poeminha que eu adoro e que combina (tão bem) com o outono:
O mundo é grande e cabe
nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e cabe
na cama e no colchão de amar.
O amor é grande e cabe
no breve espaço de beijar.
(Carlos Drummond de Andrade)

sábado, 3 de abril de 2010

Sabor de Páscoa

Dificilmente uma família não comemora a Páscoa, não é? Muito embora esteja diretamente ligada às comemorações cristãs, por ser a celebração da ressurreição de Cristo, o termo Páscoa significa "Renascimento". Portanto, é natural que todos queiram comemorar este momento único, ímpar e tão significativo na vida de todos: cristãos ou não!
Como adepta da Fé Bahá'í, devo dizer que a Páscoa me comove por duas grandes razões: primeiro, por ser um momento Bahá´í de meditação e respeito a um dos manifestantes da presença sagrada de Deus. Depois, por ser a oportunidade de treinarmos o renascimento de nós mesmos. Tudo tem uma segunda chance. O ser humano também.
Tudo aperfeiçoa-se. O ser humano também.
E, para comemorar o renascimento, eis a receita do dia:

Brandade de bacalhau

Ingredientes:

300g de bacalhau limpo, desfiado;
300g de purê de batata;
cebola;
alho;
leite;
queijo parmesão ralado;
manteiga (claro).

Modo de preparo:

De um dia para o outro, dessalgue o bacalhau. Na hora do preparo, afervente-o em leite. Em outra panela, coloque alho e cebola para dourar no azeite. Retire o bacalhau do leite, reserve o leite do cozimento e jogue o bacalhau pré-cozido para dourar junto com a cebola e o alho. Se quiser, depois que ele dourar, você pode desligar o fogo e acrescentar raminhos de coentro à essa massa.
Numa segunda panela, prepare o purê. Junte as batatas amassadas ao leite de cozimento do bacalhau e uma colher generosa de manteiga. Espere engrossar.
Para montar, numa tigela refratária, coloque primeiro o bacalhau e, por cima, o purê de batatas. Jogue parmesão ralado e leve ao forno a 200 ºC para gratinar, por 15 minutos.

Bon appétit!