sábado, 11 de julho de 2009

O enigma da esfinge


Há algumas explicações que, definitivamente, nos são dadas um pouco tarde na vida... essa semana, por exemplo, eu consegui decifrar o enigma que se prolongou por toda a minha infância e alcançou-me a idade adulta sem que eu achasse uma resposta. Vamos aos fatos: quando ainda somos crianças, não escapamos de certos vexames a que nossos pais nos submetem, como contar à visita que fizemos xixi na cama noite passada, mas a gente é descolado demais pra se importar com essas coisas. Aí quando nos tornamos adolescentes, alguns segredos são mantidos a sete chaves, porque tudo é vergonhoso demais, é feio demais, é comprometedor demais. E se nossos pais resolvem falar sobre nossa vida sem nossa permissão, vixi! Que escândalo!! Então, crescemos... e os problemas tornam-se mais sérios, mais chatos, mais dependentes de nós e o que era vergonhoso agora é contado como aulas de incentivo aos mais jovens, como momentos de superação, a gente quase dá palestras de autoajuda! E, talvez por imaginar que eu possa ajudar alguém com essa minha descoberta tardia, falarei sobre meu problema em largar a chupeta, na infância.
Durante muito tempo, eu imaginei que havia demorado a largá-la porque, logo que minha mãe me fez dar a dita para o mar, nos meus plenos 3 anos de (matur)idade e me disse que eu já estava grandinha demais para a chupeta, nasceu a minha irmã. Ela era um bebê, ela tinha atenção, ela precisava de colo. Eu já era "grandinha demais" para tudo o que ela não sabia fazer. Então, danei-me a roubar a chupeta da coitada, que se esguelava tardes a fio atrás da tampa de borracha, enquanto eu me escondia embaixo da cama e, enamorada, sugava aquela chupeta com todas as minhas forças, atracava-me em longos beijos com ela, cheirava seu látex como se aquele fosse o melhor perfume do mundo. Era uma relação de amor dolorida, porque eu sabia que logo seria descoberta, se não a devolvesse à boca de minha irmã, se não calasse de uma vez por todas aquele choro estridente e voltasse ao saudoso abandono da infância... a chupeta foi vista durante todo esse tempo como um objeto pelo qual nutri certa obsessão na infância, pelo qual sofri algumas noites o arrependimento do abandono do ser amado, durante muito tempo culpei-me pelo ato impensado e tão imprudente de tê-la arremessado em águas turvas, apertei minhas mãos em gestos de ódio contra mim mesma, sufoquei!
Eis, então, que Arnaldo Antunes entendeu minha angústia. Numa fase totalmente tomado pelas delícias da paternidade, Antunes escreve, em 2006, o livro Frases de Tomé aos 3 anos, coletânea de frases ditas pelo seu filho. Sobre o livro, ele diz: "Crianças gostam de fazer perguntas sobre tudo. Mas nem todas as respostas cabem num adulto". E talvez por isso ele tenha resolvido, mais uma vez, revisitar o universo infantil e, este ano, trouxe para as lojas seu mais novo trabalho: o cd Pequeno Cidadão, idealizado por ele e nomes como Edgard Scandura, Taciana Barros e Antônio Pinto, durante uma festa em que se encontraram, na escola dos filhos. Pequeno Cidadão é, enfim, aquilo que os adultos sempre esperaram para seus filhos: a resposta às perguntas incontáveis sobre obrigações, diversões, angústias. E a composição "tchau chupeta" ensinou-me que, na verdade, o medo de largar a chupeta não passa de um precoce medo de crescer! Ligando os fatos à menina de 13 anos que mora dentro de mim, aí está: aos 3 ela já tinha medo de crescer, de largar o lado moleca, de deixar de ser criança... e se tem uma coisa que tento não deixar de ser até hoje, por mais difícil que sejam meus dias, por mais decisões que eu tenha que tomar, é criança! Bem, como todo adulto, às vezes tenho atitudes infantis, mas não é disso que estou falando: falo da minha necessidade de meias coloridas, fazer careta no espelho do elevador, pendurar-me no braço de J. e ir pulando até a vendinha da esquina pra comprar sorvete! E a letra diz: "Todo mundo uma hora tem que se libertar"... nada mais justo do que dar essa explicação óbvia para uma criança! Porque nós crescemos e não será uma chupeta que vai nos impedir disso... joguem suas tampas, abracem o lado criança sem medo de que essa fase deixe de existir (porque para os bem resolvidos, ela nunca deixará) e sejam adultos felizes!
Para quem quiser conhecer o trabalho na íntegra, ta aqui, ó! Sugiro, além de "tchau chupeta", escutarem a música-título do álbum, porque nossos filhos precisam desde cedo aprender que tudo tem seu momento... mas isso, já é uma outra história!
A todos, bon appétit!

2 comentários:

Ezilda Cláudia de Mélo disse...

Amei o texto. Quero ouvir o cd.

Ezilda Cláudia de Mélo disse...

Lindo o texto. Quero ouvir o cd.