sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Você tem fome de quê?

















Esta, definitivamente, é uma casa de pessoas bem alimentadas! Não só pela comida (que, diga-se de passagem - J. faz com tanto carinho e capricho), mas também pelas leituras que realizamos a todo momento... a leitura, um saudável alimento. Jorge L. Borges disse certa vez que sempre imaginou o paraíso como uma espécie de livraria. Não sei exatamente a que paraíso ele se referia, mas o nosso paraíso diário certamente é feito das horas em que passamos descobrindo novidades para contar um ao outro, nas páginas dos livros e revistas que nos habituamos a folhear. (como essa musiquinha aqui, ó: "para você, o que você gosta!") Antes de cozinhar a omelete que está fazendo, por exemplo, o chef consultou seu livro de receitas... antes de ir à cozinha, lia a revista que chegou esta semana. Eu ainda vou mais longe: leio e escrevo sobre tudo o que leio! Não apenas dialogo com meus livros, mas gosto de dialogar para além deles. Não me contento apenas em imaginar as personagens, recriar ambientes, mas gosto de pensar sobre como tudo continua depois que a história acaba (desde pequena, o "felizes para sempre" dos contos de fadas nunca me chamou tanta atenção quanto pensar na Cinderela cuidando de seu casal de filhos e dando ordens aos vassalos sobre a ceia... ou João e Maria contando para os netos sobre o espetáculo de terem mordido paredes de chocolate, quando crianças!!! É lógico que, em alguns casos, sobretudo depois de adulta, isso se tornou um problema: nunca desculpei Capitu pela traição a Bentinho... tomei partido mesmo nessa discussão machadiana e nem me importo pro que diz a academia... Capitu foi uma devassa insensível!). Quando estou lendo, não são raras as vezes em que tenho a incontrolável necessidade de interromper a leitura para contar a J. sobre minhas impressões acerca de personagens ou passagens... não sei se ele gosta disso, mas nunca me manda parar. Ouve tudo atentamente e até arrisca uma opinião de vez em quando.
Atualmente, aventurei-me nas indicações de meus alunos e peguei emprestado este aí da foto. A primeira vez que vi A menina que roubava livros, a capa lembrou-me a cena de um filme... fiquei com aquela estranha sensação e, toda a vez que alguém citava esta obra ou passava com ela nas mãos, lá me vinha o tal filme de novo à memória. Muito bem! Quando resolvi lê-la, finalmente, descobri que não seria à toa que aquela capa, de alguma forma, mencionava a mim a tal película... a roubadora de livros, a cada página, mais se parece com uma menininha que surge na tela do famoso A lista de Schindler e agora eu mal posso esperar pelo final, apenas para comprovar que duas cenas, indubitavelmente, tenham inspirado o autor deste romance: 1. tela em preto e branco, dia. O personagem principal observa as ruas tomadas pelos soldados alemães quando, de repente, surge na tela acinzentada uma menininha vestida num casaco vermelho. 2. tela em preto e branco, dia. O personagem principal observa corpos de judeus serem atirados em valas quando, de repente, reconhece o pequeno corpo da menina vestido no mesmo casaco vermelho...
E daí que, para minha fértil imaginação fazer o elo que faltava entre capa e filme só precisou mesmo chegar até a página 19... e quanto mais eu leio, mais essa pequena figura se torna aquilo que eu faço com tanta freqüência: a continuação da história de uma personagem que chamou atenção! Como sabemos que a menina morre, este autor (Markus Zusak) deve ser um desses curiosos (como eu) que, não podendo saber quem era a tal menina de casaco vermelho, deu a ela uma vida, escreveu sua história, já que dela nós só conhecíamos a morte. Eis um diálogo saudável: aquele travado entre nós e nosso poder de criação!

A todos, bon appétit!

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