sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Entre Goiás, Paraíba e Paraná: a feijoada completa!




Tudo começou assim: um conhecimento mineiro invejável sobre a arte de cozinhar o trivial, aliado a uma autoconfiança vinda de mares gregos... e não é que a fama da tal feijoada goiana alcançou os altos campos gerais?! A primeira vez que eu comi a feijoada de J. foi meio "sem querer" (o prato não era pra mim nem eu fora convidada para a festa - era a comemoração pela volta do Antônio da Alemanha - eu não conhecia nem um pouco o homenageado e ainda mantinha um contato superficial com J. - mas eu devo confessar que a feijoada - ou a caipirinha? - nos aproximou um pouco mais). Depois foram algumas as vezes em que o acompanhei desde a escolha das carnes ao preparo cuidadoso da iguaria. Hoje em dia, devo confessar, a feijoada goiana é sinônimo de nossas 4 mãos na cozinha, com tudo o que elas sabem dar de bom! Com criatividade, paciência e devoção, J. faz a melhor feijoada que vocês poderão experimentar na vida... e eu o ajudo com todo o meu carinho e devoção de esposa e amiga!

Num desses fins de semana, pra confirmar tudo isto, fomos convidados a pôr o caldo do feijão pra engrossar lá em Ponta Grossa, no aniversário do Vini! E eu acho que todo mundo que esteve lá gostou bastante... foi um tal de descascar laranja, picar salsinha, fritar o bacon, a costelinha, juntar as lingüiças (e as forças) e, entre uma garrafa e outra de vinho, eis o resultado:

Quarenta e cinco pessoas comendo a nossa comidinha no frio do Paraná... gostaríamos de agradecer ao Vini e à Tatá, pelo convite e pela ajuda, aos pais deles por terem nos esperado com tanto carinho e terem feito daquele dia um dia não apenas especial para o filho/genro, mas também para nós (gente, foi nossa primeira vez numa cozinha industrial - hehehehe - olha a responsabilidade de cozinhar pra tanta gente) e ainda agradecer todos os elogios que recebemos dos comensais! Tudo muito especial mesmo! E não há, para nós, melhor maneira de agradecer esta oportunidade do que através das palavras, porque, segundo uma autora latina, que publicou o livro Para que no me olvides, cujo nome agora não me recordo, cozinhar é igual a tecer que é igual a narrar... então uso agora um trecho que acho lindo, do livro que J. me deu na lua-de-mel (a versão em espanhol, comprada na gigantesca Livraria O Ateneu, do clássico de Laura Esquivel, Como agua para chocolate) que tem tudo a ver com a nossa vida e a cozinha que deixaremos para nossos filhos e filhas (e amigos):
(...) Los primeros años de mi vida los pasé junto al fuego de la cocina de mi madre y de mi abuela, viendo cómo estas sabias mujeres, al entrar en el recinto sagrado de la cocina, se convertían en sacerdotisas, en grandes alquimistas que jugaban con el agua, el aire, el fuego, la tierra, los cuatro elementos que conforman la razón de ser del universo. Lo más sorprendente es que lo hacían de la manera más humilde, como si no estuvieran haciendo nada, como si no estuvieran transformando el mundo a través del poder purificador del fuego, como si no supieran que los alimentos que ellas preparaban y que nosotros comíamos permanecían dentro de nuestros cuerpos por muchas horas, alterando químicamente nuestro organismo, nutriéndonos el alma, el espíritu, dándonos identidad, lengua, patria. Fue ahí, frente al fuego, donde recibí de mi madre las primeras lecciones de lo que era la vida. (…) Fue ahí, en el lugar más común para recibir visitas, donde yo me enteré de lo que pasaba en el mundo. Fue ahí donde mi madre sotenía largas pláticas con mi abuela, con mis tías y de ven en cuando con algún pariete ya muerto. Fue ahí, pues, donde atrapada por el poder hipnótico de la llama, escuché todo tipo de historias, pero sobre todo, historias de mujeres. (p.15-16).

Aqui, a música que não podia faltar neste post: e então, vamos botar água no feijão?http://www.youtube.com/watch?v=A-NRPRoCwsI

Bon appétit!

Em tempo, aqui vai nossa receita, diminuída para 6 pessoas:

  • 200g charque bovina salgada
  • 200g costela de porco salgada
  • 200g pé de porco salgado
  • 100g rabo de porco salgado
  • 150g lombo de porco defumado
  • 100g paio fatiado
  • 100g linguiça calabresa fatiada
  • 1000g bacon em cubos e torrado
  • 1 kg feijão preto
  • 2 cebolas picadinhas
  • 100g alho picado
  • 6 folhas louro, 2 laranjas com casca cortadas ao meio. Salsa e cebolinha picadas para finalizar.
  • Como fazer:

    De um dia pro outro, limpe bem as carnes salgadas, tirando o excesso de gorduras e nervuras, limpando os pelos que, por ventura, existirem e colocando-as de molho em água por 24 horas, trocando-se a água três a quatro vezes durante este período.

    No dia do preparo, ferva as carnes salgadas e cortadas em pedaços relativamente grandes (exceto o pé, que vai inteiro - ao final do preparo, você vai descartá-lo, não o leve à mesa), durante mais ou menos 20 minutos em fogo forte, e jogue a água fora, pois nela está todo o excesso de gordura. Coloque então as carnes para cozinhar de forma definitiva, já com o feijão, as metades da laranja e as folhas de louro, na seguinte ordem: carne seca e pé. Enquanto isso, numa frigideira à parte, você torra o bacon e frita as outras carnes defumadas. Meia hora depois coloque, o rabo e os defumados na panela da feijoada, cuidando para tirar e jogar fora, durante todo o cozimento, a gordura que for subindo à superfície.

    Em uma frigideira, doure bem a cebola e o alho o mínimo de óleo previamente aquecido, colocando na panela do cozimento, junto com as últimas carnes para cozinhar, retirando antes as metades das laranjas, que já cumpriram a sua missão de ajudar a cortar a gordura das carnes.

    Quando todas as carnes e o feijão estiverem no ponto, salpique o cheiro verde e retire do fogo para servir. Você pode separar defumados, salgados e feijão em tigelas diferentes, para que fique mais fácil as pessoas se servirem com o que elas preferem de cada parte.

    Sirva com arroz branco, farofa na manteiga, couve refogada, vinagrete e laranjas fatiadas.

    Um comentário:

    mauriciusluis disse...

    Realmente não é exagero nenhum falar desta feijoada que foi elaborada com grande capricho de um grande mestre de cozinha....pois, como espectador,posso dizer que alguns dias antes deste evento acompanhei sua elaboração e os detalhes para as escolhas das especiarias e logicamente tive a satisfação de degustar esta feijoada!

    Muito boa mesmo!!!

    Mauricius