domingo, 15 de junho de 2008

Sofia e eu



Eis-me aos trinta! Affonso Romano de Sant'Anna, num de seus mais belos escritos, compara a mulher madura a uma orquídea que "brota exclusiva de um tronco, inteira. Não é um canteiro de margaridas jovens, tagarelando nas manhãs"... e, coincidência ou não, em meus trinta anos ganhei a minha primeira orquídea. Agora, além de Carolina, Chanel e J., Sofia (a minha orquídea, da espécie phalaenopsis) é a mais nova dona de minhas atenções. Desde que chegou, Sofia já mostrou sua imponência a tal ponto que nós praticamente pedimos licença para trocá-la de lugar dentro de casa. Imaginávamos que ela gostaria de ficar perto da adega, mas depois descobrimos que Sofia gosta de música e prefere quedar-se tranqüila próxima ao home teather, a uma distância respeitosa do sol, na sala de estar (ontem eu vi que Sofia não gostou muito de ouvir o tal Steve Ray Vaughan, enquanto nos preparávamos para ir ao show do Nuno Mindelis - segunda parte de nossas comemorações de 12 de junho - mas, tudo bem! Sofia já deve saber que, para morar aqui, há de tornar-se uma linda senhorita tolerante, principalmente aos acordes metálicos do tal Steve). Sofia não sabe (e, se depender de mim, não saberá jamais) que temo por sua vida, já que a responsabilidade de alimentá-la é minha... já perdi Regina (meu lírio alaranjado), Penélope e Rebeca (minhas tulipas de invernos passados) e umas tantas Violetas (as violetinhas gostam de se chamarem Violetas mesmo)... todas sofriam a falta ou o abuso de água e sol! Então Sofia está me fazendo pesquisar mais sobre a arte de regar plantas e, como geminianos são muito empolgados, é possível que Sofia me leve a um não sei que curso de botânica!


Ainda é de Affonso o texto que cito como um presente meu para mim mesma, nesta data querida:




Fazer 40, 50 ou 60 é um outro ritual, uma outra crônica, e um dia eu chego lá. Mas fazer 30 anos é mais que um rito de passagem, é um rito de iniciação, um ato realmente inaugural. Talvez haja quem faça 30 anos aos 25, outros aos 45, e alguns, nunca. Sei que tem gente que não fará jamais 30 anos. Não há como obrigá-los. Não sabem o que perdem os que não querem celebrar os 30 anos. Fazer 30 anos é coisa fina, é começar a provar do néctar dos deuses e descobrir que sabor tem a eternidade. O paladar, o tato, o olfato, a visão e todos os sentidos estão começando a tirar prazeres indizíveis das coisas. Fazer 30 anos, bem poderia dizer Clarice Lispector, é cair em área sagrada.Até os 30, me dizia um amigo, a gente vai emitindo promissórias. A partir daí é hora de começar a pagar. Mas também se poderia dizer: até essa idade fez-se o aprendizado básico. Cumpriu-se o longo ciclo escolar, que parecia interminável, já se foi do primário ao doutorado. A profissão já deve ter sido escolhida. Já se teve a primeira mesa de trabalho, escritório ou negócio. Já se casou a primeira vez, já se teve o primeiro filho. A vida já se inaugurou em fraldas, fotos, festas, viagens, todo tipo de viagens, até das drogas já retornou quem tinha que retornar.Quando alguém faz 30 anos, não creiam que seja uma coisa fácil. Não é simplesmente, como num jogo de amarelinha, pular da casa dos 29 para a dos 30 saltitantemente. Fazer 30 anos é cair numa epifania. Fazer 30 anos é como ir à Europa pela primeira vez. Fazer 30 anos é como o mineiro vê pela primeira vez o mar.(...) Na verdade, fazer 30 anos não é para qualquer um. Fazer 30 anos é, de repente, descobrir-se no tempo. Antes, vive-se no espaço. Viver no espaço é mais fácil e deslizante. É mais corporal e objetivo. Pode-se patinar e esquiar amplamente.(...)É como se algo mais denso se tivesse criado sob a couraça da casca. Algo, no entanto, mais tênue que uma membrana. Algo como um centro, às vezes móvel, é verdade, mas um centro de dor colorido. Algo mais que uma nebulosa, algo assim pulsante que se entreabrisse em sementes. Aos 30 já se aprendeu os limites da ilha, já se sabe de onde sopram os tufões e, como o náufrago que se salva, é hora de se autocartografar. Já se sabe que um tempo em nós destila, que no tempo nos deslocamos, que no tempo a gente se dilui e se dilema. Fazer 30 anos é como uma pedra que já não precisa exibir preciosidade, porque já não cabe em preços. É como a ave que canta, não para se denunciar, senão para amanhecer.Fazer 30 anos é passar da reta à curva. Fazer 30 anos é passar da quantidade à qualidade. Fazer 30 anos é passar do espaço ao tempo. É quando se operam maravilhas como a um cego em Jericó. Fazer 30 anos é mais do que chegar ao primeiro grande patamar. É mais que poder olhar pra trás. Chegar aos 30 é hora de se abismar. Por isto é necessário ter asas, e sobre o abismo voar.





Pois então, pois então... cá estou! Nostálgica e à espera dos grandes acontecimentos que o segundo semestre deste ano nos guarda... abaixo, instantâneos das comemorações (tão perfeitinhas) do 12 de junho:

(Show do Nuno Mindelis, ontem à noite - J. dançando euforicamente... Eu e Taís, nuns papos bem pra lá de Marrakech, hehehe!!!)

( de cima pra baixo: Chanel - descabelada - e Sofia; detalhe da decoração romântica e literária do 12 de junho, num bistrô lindinho e aconchegante, que só abre 3 vezes por ano - nas ocasiões especiais - e a entrada do jantar de aniversário e dia dos namorados ). Logo logo vamos comentar esses camarões envoltos em parma, acompanhados de papas fritas, purê de abacate e macarrãozinho cabelo-de-anjo!
Em tempo: queremos mandar um abraço para o pessoal da Revista Adega e dizer que este blog aqui pode nem ser o mais acessado, mas certamente é o mais BEM acessado, pelas ilustres visitas que recebemos, com muito carinho! Aproveitando, agradecemos a Silvia Mascella Rosa pelas excelentes indicações de Rosés! Logo, logo J. deixa a preguiça-Caymmi-de-beira-de-mar para mexer com as palavras e posta mais uma de suas avaliações por aqui.... A todos, é uma honra participar nosso cotidiano com pessoas tão importantes e carinhosas, obrigada(o)!!!
Bon appétit!

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