domingo, 22 de junho de 2008

"Malditos solitários"


Certa vez, numa crônica, falei sobre o pôr-do-sol. Não qualquer um, mas aquele que acontece no exato momento em que voltamos para casa, após um dia exaustivo de trabalho. Engraçado como a maior parte das pessoas que conheço não tira um minuto de seu dia para observar... o dia! Talvez, no afã de que ele aconteça novamente, as pessoas o deixam passar... e todos os dias voltam pra casa, depois do expediente, apenas esperando o fim-de-semana chegar! Eu não! Todos os dias, ao sair da escola, eu procuro pelo meu dia por um minuto. Há ocasiões em que, confesso, é difícil encontrá-lo (são tantos os problemas, as contas a pagar, as chateações dentro - e fora - da escola, que uma ou outra vez, como toda boa exceção da regra, caminho pensando em suspiros... aqueles de açúcar mesmo! Mas, na maioria do tempo, procuro não esquecer o que vivi). Eu encerrava a tal crônica com uma indagação: para onde olham as pessoas quando voltam do trabalho? Meu horário de expediente na escola chega ao fim às 17h40min. No inverno, não vejo o pôr-do-sol. No entanto, nos dias em que tenho aula pela manhã, como recompensa (ou castigo, dependendo da temperatura lá de fora) saio de casa bem na aurora do dia. Muitas vezes, na primeira aula, a sala tem metade de olhinhos sonolentos tentando fixar as regras malucas da gramática. A outra metade luta para sair debaixo dos edredons só para não levar falta. E, na minha volta pra casa, venho pensando sobre isso. Desde cedo temos obrigações. Algumas, impostas pelos nossos pais, outras são estipuladas por nós mesmos, ou pelo nosso caráter. Uma das regras que impus cedo a mim foi a da auto-confiança. Chovesse ou fizesse sol, meus objetivos estariam acima de tudo. Cedo, escolhi um duro caminho: fui mãe, fiz duas graduações, emendei um mestrado e, em seguida, o bendito doutorado, escolhi uma profissão que me dá muita alegria e muito trabalho no fim-de-semana; mas, sempre desempenhei tudo com muita seriedade e vontade. Faz pouco tempo também que aprendi a acender um fósforo de cada vez (como sou muito impulsiva e adoro fazer tudo ao mesmo tempo, costumava sufocar-me com o cheiro da minha própria pólvora - para entender melhor do que falo, leiam - ou vejam o filme - da foto deste post). Uma coisa que tenho procurado entender é o tempo de cada um. Principalmente quando se divide os dias (e as noites) com alguém, é importante que tenhamos o hábito de respirar a solidão na volta pra casa, para que, assim, não sufoquemos o outro com nossos desejos e aflições. Como eu sou imediatista e convivo com alguém que adora o "daqui a pouco", é importante que eu não perca o costume de olhar para o céu na volta pra casa, pensar em tudo o que vivi, optar pela separação diária entre o joio e o trigo (a propósito, leiam Com quién me caso yo?, um livro sobre a arte de combinar pratos e bebidas, que eu trouxe, não por acaso, da lua-de-mel, em BsAs). Enfim, é necessário que eu respire um pouco o ar de momentos comigo mesma, para que eu aprenda a esperar o tempo do outro, mesmo que este tempo me magoe, me atormente, me aflija... por mim, seguirei lendo meus livros escolhidos com tanto esmero, à espera das dedicatórias, que um dia certamente hão de vir!

P. S.: o título faz referência à gravação da música "Natureza noturna", de Zeca Baleiro e Raimundo Fagner (um achado do mundo Kitsch).

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