terça-feira, 6 de maio de 2008

Solo se trata de un juego...





Aos comparsas companheiros deste pecado (comer de prazer - ou vice-e-versa, já que a variação da ordem não altera o paladar), digo-vos de antemão que o post de hoje em nada deixa a desejar (em detalhes e conselhos) ao merecidamente elogiadíssimo texto de J.
Faz-se necessário, entretanto, alertá-los para uma possível ambigüidade (supostamente já percebida nas primeiras linhas) que se fará presente em meu discurso, nesta noite. Pois, vamos lá. Dentre as aventuras mais pitorescas de uma Buenos Aires desejosa de nossa presença, esta deve ter o privilégio de ser a primeira narrada. Guardem este nome (mas, mais que ele, guardem este endereço: Calle Gorriti, 5054, PALERMO SOHO): Te mataré Ramirez!
J., em segredo (primeira traição pós-matrimonial), conduz-me a um táxi, no intuito de me levar para jantar. Pensando eu que se tratava de um inocente e despretensioso tilintar de taças, típico de nossas noites, não desconfio de que, na verdade, J. está me levando a um dos mais cobiçados (e a palavra aqui cai como uma luva) restaurantes de toda BsAs. Isto porque, amigos, Te mataré Ramirez é, nada mais, que um excêntrico restaurante erótico!!!!! Até aí, vocês devem estar pensando: "tudo bem". E estaria, se J. não tivesse pedido ao taxista que nos levasse à Rua Paraguay, em Palermo Viejo (endereço indicado no guia)!!!!!! E se o ******* do taxista não tivesse feito aquela cara de "mira, que brasileños fuera de la casita", quando percebeu que nós estávamos procurando o tal restaurante... isto porque, dois dias depois, descobrimos que ele havia "cambiado la dirección", como nos explicou uma argentina muito gente boa, num outro restaurante, em Puerto Madero! Muito bem: eis que, de posse do endereço correto (e de toda a pouca vergonha nas bochechas), andentramos novamente num táxi e pedimos: "Restaurante Te Mataré Ramirez", ao que o taxista prontamente nos atendeu!
Apenas para deixá-los com água na boca e um salivar típico do desejo, passo a narrar as excentricidades do local, com uma certa dose de discrição e reticências: após assistirem a uma peça teatral, ainda no primeiro piso do restaurante, você e seu par podem optar pelo tipo de noite que querem ter já na escolha do ambiente para o jantar. Com três salões escondidos entre paredes e cortinas escuras (oscilando entre o preto e o vermelho), o lugar oferece um bar, onde vocês podem se imaginar como desconhecidos num encontro casual; um jantar entre as almofadas de uma sala de estar, para reproduzir o cotidiano de vossa casa; ou um último espaço, em reservadas mesas postas no alto de uma espécie de palco, para os mais exibidinhos ou que estejam em lua-de-mel, como é o caso em questão (vejam a foto).




Como se já não bastasse, de posse do menu, vocês descobrem também que a comida é absolutamente afrodisíaca (senão pela mistura de condimentos, pelas formas que as iguarias se apresentam nos pratos, sobre a mesa... de onde surgem símbolos fálicos entre um filé de salmão e uma torrada, por exemplo - tudo minuciosamente decorado no prato que lhe é servido com muita sensualidade). De mais a mais, tentem olhar profundamente nos olhos um do outro... não apenas para sentirem o clima todo do lugar e aguçar seus sentidos, mas mesmo para esquecer dos quadros que compõem as paredes (de uma breguice e pornografia incomparáveis - nada agradável, se é para não ter gostado de algo ali dentro). Os nomes dos pratos, além do visual, também é algo que chama a atenção: eu pedi um capelletti que, em outras circunstâncias não se faria presente em minha mesa, num restaurante, apenas pelo título da "coisa": su boca infantil inspira perversiones!!!!! E quem não comeria um capelletti com esse nome????
J. optou por algo mais tradicional para o momento nupcial: te entregas sumiso a mis intimas perversiones... muito embora (terá sido alguma ironia do destino???) seu pedido tenha vindo trocado por entre el deseo y la verguenza, que é nada mais que uma salada de flores (muito bem arquitetadas num prato que não pede apenas uma primeira garfada...)!
Enfim, enfim... deixo o resto da noite à vossa mercê, já que a arte de seduzir, tanto no amor como na comida, meus caros, "solo se trata de un juego". A todos, Xeque-mate!
Bon appétit!
K.

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