domingo, 4 de maio de 2008

“Mi Buenos Aires Querido”


Fomos muito felizes na escolha do destino para nossos dias de núpcias imediatas. Confesso que sempre achei que o Brasil não é um país de meias estações. Nossos principais destinos turísticos alcançam seu auge nas estações extremes, restando poucas opções interessantes para os equinócios anuais. Eu, particularmente, adoro o clima indeciso das estações intermediárias, das manhãs frias que se desenvolvem em dias ensolarados e relativamente quentes que precedem noites aconchegantemente frescas.

Se Carlos Gardel ainda estivesse vivo, estaria orgulhoso de sua cidade do coração. Em todos os sentidos. Pela arquitetura ímpar na América do Sul, pela receptividade de seu povo, pela excelente gastronomia, pela cultura emanada por cada cantinho da cidade, as livrarias que chegam a impressionar em número e qualidade, pelo tango, impregnado à vida portenha, que continua prestigiado pelos hermanos, e fascina os visitantes de todo o mundo.

Caminhar pelas suas calçadas é fascinante. A prosperidade econômica do início do século XX rendeu à cidade uma diversidade arquitetônica invejável. Praças madrilenhas, boulevares franceses, becos novaiorquinos, parques, tudo com um toque bem argentino, inconfundível. Muitas edificações em art nouveau revelam um intercâmbio cultural intenso entre argentinos e franceses no final do século XIX, e que influencia até hoje a arquitetura local.

O patrimônio artístico da cidade também impressiona. O acervo do Museo Nacional de Bellas Artes é bastante vasto, com importantes obras desde o período bizantino até o contemporâneo, com destaque para quadros impressionistas de primeira linha, com Manet, Degas, Renoir, Cézanne, e uma coletânea de esculturas de Rodin muito representativa (isso sem contar o original de “O Pensador” que está abandonado na praça do congresso).

No MALBA, Museo de Arte Latinoamericano de Buenos Aires, nós brasileiros nos sentimos em casa. Muitas obras de artistas tupiniquins, com destaque para o nosso expoente maior da pintura modernista, a inconfundível Tarsila do Amaral, com todos os seus principais quadros reunidos em uma única exposição (por tempo limitado). Pra deixar marejadas as pupilas mais sensíveis.

A gastronomia renderia um capítulo à parte. Como bons gourmets (e gourmants) que somos, não poderíamos deixar a boa mesa em segundo plano. Queríamos explorar o que a cidade oferece de melhor. Para isso, como sempre fazemos em nossas viagens, uma fonte de informação segura é fundamental para não cairmos nas armadilhas preparadas para turistas indefesos. À procura de um bom guia, me deparei com o nome Vidal Buzzi (muito respeitado pelos argentinos, diga-se de passagem), com seu guia de restaurantes de Buenos Aires, que, segundo a própria capa afirmava, pretende-se como o único que “premia e castiga”. Dentre os mais bem avaliados no quesito cozinha, nossos critérios de escolha estavam bem definidos: culinárias diretamente relacionadas à argentina (espanhola), e à portenha propriamente dita, em suas vertentes tradicional e contemporânea. Queríamos também conhecer os lugares mais procurados pelos argentinos, na atualidade – uma característica, aliás, típica de nossas visitas por aí afora, é tentar chegar o mais próximos possível do estilo de vida nativo. (As impressões de cada um dos restaurantes escolhidos serão registradas em posts dedicados neste blog.)


E, para que a experiência gastronômica seja completa, um bom vinho é indispensável. E foram tantos... já que, em se tratando deste casal, não poderia deixar de ser. Comentarei os exemplares degustados com mais detalhes, em momento oportuno. Mas o que me deixou muito feliz (e impressionado) foi atestar que os argentinos estão desenvolvendo uma identidade própria para seus já famosos Malbecs, e com inegável competência. Dentre os diversos rótulos desta casta que passou por nossas taças, fica nítido o perfil argentino desta uva, com um frutado copioso a frutas negras, notas de café, e um floral de violetas vivo, perfumado. Preparem-se para vinhos grandiosos, de grande qualidade e, principalmente com muita tipicidade.




Para finalizar, não poderia deixar de reconhecer a hospitalidade e a boa educação que nossos vizinhos demonstraram em todos os ricos momentos que compartilhamos. Aliás, descabimento seria pensar que um povo culto como o argentino (tem mais livrarias em Bs. As. que banquinhas de CD pirata no Brasil) iria agir de forma ríspida ou preconceituosa com seus irmãos brasileiros.

Para quem está pensando em visitar Buenos Aires, minha última e mais importante dica: prepare seus sentidos: Visão, olfato, paladar... Esteja pronto para exercitá-los em toda sua amplitude e intensidade. Em suas ruas, praças, parques, nas mesas dos restaurantes, nos aconchegantes cafés, feiras livres, antiquários, bares, pubs... Afinal, queremos que todos conheçam a Buenos Aires que nós tivemos “os prazeres” de desfrutar.

J.

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