sábado, 22 de março de 2008

O retorno de Saturno



Há dias tenho mantido a fixa idéia de retomar a atividade da escrita. Primeiro, porque me faz muito bem em determinados momentos e, depois, porque esta árdua tarefa, em mim, depende sempre de dois pólos extremíssimos, para ser pleonástica: o sofrimento intenso e a felicidade sublime! Como de sofrimento eu venho entendendo cada dia menos, graças aos verdes louros que aprendi a colher, só a segunda opção me sobra hoje!

Para uma geminiana, que não pode fugir da incansável batalha entre Castor e Pólux, travada todos os dias dentro de si mesma, viver sob pólos é absolutamente compreensível. Isto porque os extremos estão para a minha vida assim como o arroz para o feijão, o doce para o salgado, o preto para o branco e todas essas ocorrências a que estamos habituados... num único dia, posso ouvir Nina Simone e cantarolar um ou outro hit dos Tribalistas com o mesmo encantamento. Deslumbro-me de Godard a Woody Allen sem ter medo de parecer, aos desconhecidos, um tanto eclética, porque os que me conhecem bem sabem que isso é que eu não sou. Em geral, os ecléticos são medíocres (sem nada de pejorativo neste conceito, por favor). E a mediocridade nunca foi o meu forte (ou não seria eu uma extremista). Eu gosto de coisas boas, de cultura (mesmo a inútil) com referencial, gosto do sarcasmo inteligente e do romantismo picante, o que, mais uma vez, nega-me o ecletismo. Figurinha complicada e pouco compreendida. Praticamente uma marciana!

E hoje, eu venho "através destas mal traçadas linhas", guiada, ora sim, por essa felicidade sublime de que falei ainda há pouco, por um motivo mais do que único (e extremista): a exatos 31 dias serei uma senhora casada! E, como eu sei que em momentos de emoção extrema, sou péssima com as palavras, achei mais prático antecipar-me ao dia do sim e expressar, agora e a vocês, o que esta assustadora e maravilhosa experiência tem me causado, além do frio na barriga, obviamente!

A reflexão numa madrugada insone foi o estopim para tudo o que será (d)escrito, daqui pra frente: começo falando sobre os meus vinte e nove anos: dizem que aos vinte e nove, Saturno retorna à mesma casa astral onde estava no dia do nosso nascimento. Dizem também que é quando as decisões mais acertadas podem ser definitivamente tomadas, porque há a chance do recomeço, algo como um retorno ao ponto de partida. Muito bem, apenas mais uma teoria... e, por falar nelas, é muito bom pensar que meu encontro com o meu Amor tenha sido por acaso, porque o fatalismo atribuído ao destino tira um pouco do tempero disso tudo!

Como eu sou um pouco metafórica (e ele sinestésico), gosto de imaginá-lo como uma grande feira, na qual podemos explorar uma quantidade absurda de sensações, aromas e sabores... algo assim, como um Marrocos sendo desvendado - mesmo eu nunca tendo estado em Fez, imagino os labirintos de seu comércio, as decobertas incríveis que faria pelas suas vielas... tal qual a experiência ímpar de tê-lo conhecido... e de não ser mais a mesma, desde então (porque, quem iria a Fez e voltaria o mesmo?).

A princípio, eu diria que nosso encontro foi apenas a descoberta de coisas em comum, como acontece entre duas pessoas... aquela coisa da troca - eu empresto meu livro de cabeceira e você me traz aquele cd que adorei ouvir na sua casa e blábláblá! Depois, cada dia foi ficando mais simples: algo como acordar todos os dias e percebê-lo ali, tecendo uma colcha de retalhos ao meu lado, nós dois... ambos, comedidamente balanceados no ombro um do outro: o meu vermelho e o branco dele, meus cd's de bossa e o rock metálico dele... e só quem conhece o cotidiano desta casa com uma similar atenção é capaz de captar a fina essência deste dia-a-dia. Na bagunça diária, restos de leitura fora do lugar (um livro sobre a mesa, uma revista no banheiro, um catálogo da Expand na casinha da Chanel, num rococó de dentadas que mais enfeitam do que aborrecem), um ticket antigo de viagem caído atrás da tv, as alquimias gastronômicas enchendo de aroma o corredor lá fora, as duas taças da noite de ontem em todas as manhãs... um pé de manjericão crescendo lindo na cozinha e a hortelã que está tomando toda a sacada. Isto é o que já existe. Nem precisaria de mais, mas o dia 19 do mês que vem é apenas o outro começo de tudo o que virá: das caixas pela sala esperando mais armários, a casa esperando mais um quarto, os sonhos e as vontades! Sobretudo, as vontades, porque são elas que constróem o que o Amor já planejou.

Então é isso: é muito mais do que uma cerimônia ou flores escolhidas, do que trilha sonora e olhos marejados... é o que já existe e já é perfeito. É a continuidade de nós dois. Um passeio a Fez, todos os dias! Simples assim.

K.

Um comentário:

Claudio, A. disse...

"... e aos vinte e nove, com o retorno de Saturno, decidi começar a viver..."

Para ficar com a mesma referência, quem iria a Ouro Preto e voltaria o mesmo?
Quem conheceria pessoas maravilhosas, provaria os mais deliciosos sabores, veria as mais mais deslumbrantes cenas e paisagens, quem provaria o mundo feito uma iguaria e continuaria o mesmo? Certamente não nós, os bons..